ADSE: jogar com todas as cartas do baralho…


A 'questão ADSE' tem sido um problema adiado que o Ministro da Saúde resolveu levantar no exacto momento em que cortes orçamentais garrotam os serviços públicos e os impostos 'esbulham' largamente os rendimentos das pessoas, das famílias e das empresas (de toda a gente).
Aparentemente, a teia de soluções que o Ministro Macedo tece à volta da ADSE tem a sua razão de ser. Dentro de um clima de rigor e de equidade decorrente dos constrangimentos que empurram os portugueses para um dramático empobrecimento (é preciso nunca esquecer esta circunstância) não existe espaço para situações que possam ser conotadas como sendo passíveis de ser interpretadas como privilégios. Esta deve ser uma regra para toda a gente.
Quando o ministro afirma que a ADSE não deve contar, “como até agora, [com] transferência do Orçamento do Estado, dos impostos de outros portugueses” link seria bom definir outras vertentes deste tal ‘seguro público’ de saúde. E entrando por este caminho deverá o ministro clarificar, por exemplo, como entende o quadro de ‘dupla tributação’ que se está a desenhar. Os beneficiários da ADSE ao que toda a gente supõe – Paulo Macedo integra um Governo que não se cansa de afirmar 'privilégios remuneratórios' da Função Publica – pagam impostos e sustentam por esta via o SNS. Ao adiantar-se que os FP, através da ADSE, estão a ser empurrados para um ‘opting out’ (em relação ao SNS) deveria existir alguma compensação fiscal. Enfim, as contas não parecem ser tão lineares. Se a ADSE deixar de contar com transferências do OE em que medida os FP devem ser ‘aliviados’ da pesada carga (canga) fiscal que os esmaga, já que em Portugal afecta per capita cerca de 2000 euros para custos de saúde, sendo 65% deste montante (1350 euros) oriundos do OE … link (facto que devia nas contas do Ministro merecer alguma ponderação).
Ao fazer produzir declarações tão altissonantes é necessário que o MS jogue com todas as cartas do baralho. Caso contrário, o ar benévolo do Ministro no seio de um Governo tão desastrado esboroa-se porque ao seguir caminhos ínvios prossegue na senda do ‘esmifranço’ da FP, um processo em curso sob a batuta da dupla Coelho/Gaspar, que utiliza os mais toscos matizes para denegrir os serviços públicos.
Na verdade, e apresentado de maneira grotesca o problema é maior. Os FP estão a contribuir com a sua quota-parte para o SNS – enquanto serviço público e universal - e alocados para através de um ‘seguro público’ sustentar parte substancial (vamos ficar por aqui) dos serviços de saúde privados e do sector social que, nos últimos anos, tendo sido implantados no terreno. Este o ‘entalanço’ que se adivinha e deve ser desde já discutido e esclarecido.

Semanário Expresso: "Ministro da Saúde quer manter ADSE"  link

E-Pá!

VIH SIDA, situação 31.12.12

«Entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2012 foram recebidas no Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, I.P, no Núcleo de Vigilância Laboratorial de Doenças Infecciosas, notificações de 1707 casos de infeção pelo vírus da imunodeficiência humana, referentes a 1551 novos casos e a 156 casos em que se verificou evolução de estadio. Dos casos recebidos, 776 (45,5%) foram diagnosticados no mesmo período e os restantes 931 (54,5%) foram diagnosticados em anos anteriores mas a sua notificação só foi rececionada durante 2012. A maioria das notificações recebidas correspondia a casos de portadores assintomáticos (PA) (903; 52,9%) e reportando a categoria de transmissão “heterossexual” (1009; 59,1%). 
Casos de infeção VIH diagnosticados em 2012 
Durante o ano de 2012 foram notificados 776 casos cujos diagnósticos ocorreram no próprio ano. Destes, 319 (41,1%) referem residência no distrito de Lisboa. A análise da distribuição por sexo revela que 549 (70,7%) foram registados em indivíduos do sexo masculino, verificando-se um ratio homem/mulher (H/M) de 2,4. Para os casos diagnosticados em 2012 cuja idade é conhecida (774) apurou-se uma idade mediana de 41,0 anos (IC a 95%: 40,0-42,0). A maioria dos casos (548; 70,6%) registou-se em indivíduos nativos de Portugal, verificando-se que a África subsariana, a América latina e a Europa são as regiões de origem de, respectivamente, 66,4%, 20,0% e 11,4% dos 220 casos que referem ter nascido fora do território nacional. O VIH do tipo 1 (VIH1) foi o responsável pela maioria das infeções notificadas, no entanto, 32 casos com diagnóstico no ano em análise referem infeção pelo VIH do tipo 2 (VIH2). 
A análise da distribuição dos casos diagnosticados em 2012 (quadro 1), de acordo com o estadio clínico, revela que 50,4% dos casos foram classificados como portadores assintomáticos (PA), 17,8% como sintomáticos não-SIDA e 31,8% como SIDA. Regista-se ainda que 63,1% dos casos referem transmissão heterossexual, 24,1% referem transmissão homo/bissexual, 10,0% incluem-se na categoria de transmissão “toxicodependente”, 0,9% correspondem a outras categorias de transmissão e em 1,8% dos casos a categoria de transmissão não foi indicada. Verifica-se assim que, nos casos diagnosticados em 2012 e em que existe informação para esta variável (762), o contato sexual foi a forma mais frequente de transmissão da infeção (88,8%). Os casos incluídos na categoria de transmissão homo/bissexual correspondem a 34,1% dos casos diagnosticados em homens. 
Casos de SIDA diagnosticados em 2012 
Em 2012 foram notificados 496 novos casos de SIDA, dos quais 247 diagnosticados no próprio ano, maioritariamente no distrito de Lisboa (39,3%). Cento e oitenta e três casos registaram-se em homens (74,1%), correspondendo a um ratio H/M de 2,9. A análise dos casos com idades conhecidas (246) revelou uma idade mediana de 45,0 anos (IC95%: 43,0-47,0). A categoria de transmissão mais frequentemente referida foi a categoria “heterossexual” registada em 66,0% dos casos, seguida das categorias “homo/bissexual” (15,8%) e “toxicodependente” (15,0%). A patologia indicadora de SIDA mais frequentemente diagnosticada nestes casos foi a pneumonia por Pneumocystis jiroveci (54; 21,9%), contudo, a tuberculose, se consideradas todas as suas formas de apresentação clínica, é referida em 23,5% dos casos (58).» 
Infecção VIH/SIDA – A situação em Portugal a 31 de dezembro de 2012 link

Cancro, resultados deixam muito a desejar

A conclusão global é positiva: em 2012 conseguiu-se o melhor valor de sempre no tempo de espera por cirurgias no Serviço Nacional de Saúde (SNS), com a maior parte dos hospitais a conseguir tratar os doentes em apenas três meses, bem abaixo do prazo máximo de nove meses previsto na lei. Mas, quando se analisam com mais atenção os dados do Relatório da Actividade Cirúrgica Programada, ontem divulgado, percebe-se que os resultados ainda deixam muito a desejar na área mais sensível, a do cancro: no ano passado, mais de um quinto dos doentes oncológicos (21,7%) foi operado acima do tempo máximo recomendado na legislação, e, entre estes, 15,3% eram mesmo considerados prioritários.
Na oncologia, os tempos máximos de espera previstos na lei são bem mais curtos do que nas outras áreas — oscilam entre os dois meses e os 15 dias, consoante a gravidade do caso. O problema é que, se em 2012 a percentagem dos doentes tratados fora do prazo legal diminuiu face ao ano anterior, a proporção dos prioritários operados fora do prazo aumentou (era de 13,6% em 2011)
“Actualmente já conseguimos gerir bem o tratamento das situações normais. Agora, o grande desafio é fazer isso também na área oncológica, onde não temos melhorado tanto quanto gostaríamos”, admitiu ao PÚBLICO Pedro Gomes, o cirurgião que coordena o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia, programa lançado em 2004 para combater as listas de espera. “No cancro é preciso tratar depressa, mas alguns hospitais têm dificuldade em articular os vários exames necessários [antes das cirurgias], como TAC, ressonâncias”, por isso se ultrapassam os prazos para cirurgias, explicou.
Um outro fenómeno que surpreendeu os especialistas foi o de que diminuiu em 2012 o número de doentes com tumores malignos submetidos a cirurgias, quando a evolução demográfica faria antecipar justamente o contrário, devido ao envelhecimento da população e aumento das neoplasias. Um mistério que está a ser investigado, revela Pedro Gomes, que presume que isto possa eventualmente estar relacionado com problemas de acesso às primeiras consultas, no caso de doentes que residem no interior do país, porque o tratamento do cancro se faz sobretudo nos grandes centros. “Não sei se as dificuldades de deslocação e os encargos que os doentes passaram a ter com os transportes terão contribuído para retirar alguma procura. Se estes doentes estiverem a chegar mais tarde aos hospitais, podem estar a chegar com neoplasias em estádios mais elevados, já sem indicação para cirurgia”, reflecte. ...
JP 28.06.13
No 1.º trimestre de 2013, os CSP realizaram menos 552.340 consultas (-6,9%) em comparação com igual período de 2012. Neste ano, os CSP realizaram -1.446.882 (-4,7%) relativamente a 2011. Só daqui a um bom par de anos vamos saber a verdadeira dimensão do escavacanso provocado por esta política de saúde de aumento insensato das taxas moderadoras.

Relatório da Actividade Cirúrgica – Ano 2012

... Em 2012, em média, os doentes esperaram três meses para serem operados e 15% foram atendidos fora dos prazos máximos previstos. Isto apesar de o Serviço Nacional de Saúde (SNS) estar a enviar cada vez mais doentes tanto para os hospitais convencionados, com protocolo ou em regime de parceria público-privada.
Os dados que fazem parte do Relatório da Actividade Cirúrgica Programada mostram que ao todo em 2012 houve 534.415 operados, quando em 2006 eram 345.321, o que representa um crescimento de quase 50%. Ainda assim, enquanto em 2006 só 7,5% dos doentes tinham sido encaminhados para sistemas privados, no último ano esta percentagem subiu para 16,7%. Este aumento em percentagem corresponde a uma passagem de cerca de 26 mil doentes enviados para o privado para cerca de 89 mil doentes. Ou seja, mais do que triplicou o número de doentes enviados pelo SNS para hospitais convencionados, com protocolo ou em regime de parceria público-privada. 
 Os dados mostram que tem vindo a baixar o número de pessoas que são operadas em hospitais públicos através de remunerações alternativas, nomeadamente pelo pagamento de incentivos. De momento há ainda 166.798 pessoas inscritas à espera de uma cirurgia, um número que caiu 7,5% face ao ano passado e 24,6% em relação a 2006 – o que tem sido conseguido com a ajuda do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), criado em 2004. ...
JP 26.06.13

Das 534 mil cirurgias realizadas em 2012, 75% efectuaram-se em hospitais públicos, 8% em ULS, 7% em PPP, 5% em hospitais convencionados e 5% em hospitais protocolados.

Tx moderadoras, receita cresceu 57,6%

Execução financeira do SNS, março de 2013, apresenta um saldo positivo de 28 M.€. link 
A receita das taxas moderadoras cresceu 57,7% relativamente ao período homólogo de 2012.

CSP, menos 552.340 consultas


No 1.º trimestre  de 2013, os CSP  realizaram menos 552.340 consultas (-6,9%) em comparação com igual período de 2012. De notar que esta queda é generalizada: consultas médicas presenciais : -465.599 consultas (-7,9%),  consultas médicas não presenciais: -83.096 (-4,1%) e consultas médicas domiciliárias: -3.645 (-6,3%). link
De notar que no ano de 2012, os CSP realizaram -1.446.882 (-4,7%) relativamente ao ano anterior.
Se esta violenta quebra de acesso aos CSP não é causada pelo aumento das taxas moderadoras porque será ?

Assim vai a Saúde ...


1. "Estado limita acesso aos remédios" link 
2. "Bastonário dos Médicos: "Existe um bloqueio aos medicamentos inovadores" link 
3. "Hospitais escondem números mas contas estão a derrapar e não é pouco" link 
4. "Dívidas dos hospitais à indústria farmacêutica já estão a subir outra vez" link 
5. "Despesa com saúde aumenta no privado e diminui no público" link

Optimização dos processos de compras

Um desafio para o sector hospitalar
A contínua necessidade de optimizar os recursos disponíveis é um imperativo de gestão, que se torna mais premente (e em quantos casos uma questão de sobrevivência) nos momentos de maior dificuldade económica como aquele que atravessamos actualmente.
As organizações que se dedicam à prestação de cuidados de saúde não são excepção quer sejam do sector público, quer sejam do sector privado. A mudança do ambiente em que estas organizações actuam, tem vindo a acelerar nos últimos tempos, trazendo novas realidades e novos desafios para todos os seus agentes. A comunicação tem vindo a assumir uma maior relevância, em particular nas organizações do sector público. Comunicação com os utentes, com os colaboradores, com os fornecedores, com o regulador, com a tutela. Cada vez mais é esperada, exigida até, informação diversa e detalhada não só de carácter clínico mas igualmente de carácter económico e financeiro.
Olhando para a estrutura de custos de uma unidade hospitalar, que apresentam necessariamente variações em função do tipo de unidade, ressaltam os custos com os medicamentos, com o pessoal e com a contratação de vários serviços. Quer no sector público, quer no sector privado, tem havido um esforço no sentido de reduzir os custos com as compras, incluindo com os medicamentos, passando em parte pela centralização do processo de negociação com fornecedores. Embora tal processo se encontre em diferentes estádios nas várias organizações, percebe-se a urgência de serem dados novos passos, em boa parte motivada pela maior escassez dos recursos financeiros disponíveis. É, no entanto, incontornável  a necessidade de investir, quer em sistemas de informação adequados a uma eficiente gestão das compras hospitalares, quer em recursos humanos a afectar a tal processo. Não fazer tal investimento é ficar a meio do caminho, é continuar a adiar as sinergias possíveis. Muita da experiência acumulada no sector da grande distribuição poderá ser incorporada no sector da saúde. A gestão destes processos por unidade, isoladamente, não é tão eficiente. Uma centralização, ainda que por etapas, do conhecimento existente e especifico, das regras a implementar e dos procedimentos a seguir, é o caminho que deveria ser traçado, a curto-prazo.
Promover um maior nível de comunicação entre os agentes do sector, prestar informação financeira de forma mais detalhada e regular, optimizar os recursos disponíveis, são alguns dos desafios perfeitamente alcançáveis que o sector da saúde em Portugal tem pela frente.

Paulo Silva, Partner Ernst & Young, 21.06.13

Como é possível haver hospitais  do SNS, hoje em dia, que ainda não utilizem uma qualquer plataforma informática que lhes permita partilhar conhecimento, procedimentos, e informação comum na gestão corrente das compras hospitalares?
drfeelgood

Maternidade Alfredo da Costa


«Centro Hospitalar abre inquérito e critica “más práticas” da equipa de obstetrícia. Médicos devolvem acusações
A poucos dias de se conhecer a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa sobre a providência cautelar interposta contra o fecho da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), reacendeu-se o desentendimento entre os médicos e a administração do Centro Hospitalar Lisboa Central, a que pertence a instituição.
Na semana passada, a administração abriu um inquérito à equipa de obstetrícia da MAC para apurar porque decidiu “internar parturientes acima da capacidade instalada, optando por recorrer a instalações já desativadas, afetando as suas condições de conforto e privacidade”, o que diz ser uma “má prática”.
Como o Expresso noticiou, um pico no número de partos levou os médicos da maternidade a internar mães em salas que já tinham sido encerradas e de onde tinham sido retiradas as cortinas de separação entre camas, obrigando os profissionais de saúde a examinar as parturientes sem privacidade.
Para a administração do Centro Hospitalar, “a decisão mais correta teria passado por outras opções existentes na MAC ou pela transferência destas utentes para outras unidades, que garantissem a privacidade das mulheres durante a observação”.
A diretora do serviço de obstetrícia, Ana Campos, garante, no entanto, que não havia outra solução. “Não íamos retirar mães e bebés do serviço de obstetrícia para o serviço de ginecologia, onde estão mulheres doentes, nem enviar senhoras em trabalho de parto para outro hospital, correndo o risco de terem o bebé na ambulância”, responde.
A responsável desmente que o fecho de três das cinco salas existentes no piso 2 da maternidade tenha contado com o seu acordo, como referiu a administração na semana passada. “Não houve consenso. O número que eu propunha era inferior, exatamente porque previa que as camas iam ser necessárias em picos de procura”, diz.
Ana Campos, que afirma não ter tido conhecimento oficial de qualquer inquérito, assegura que, em dezembro, quando foi decidido o encerramento das salas, os médicos da maternidade pediram orientações à administração sobre como proceder em caso de um pico de procura, não tendo recebido resposta. “Não foi estabelecido qualquer protocolo com outro hospital para transferir parturientes. Sem indicações, não vamos, a meio dos partos, andar a ligar para outros hospitais a saber se têm vaga para receber as mulheres.” O Expresso contactou a administração do Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC), mas não obteve resposta até ao fecho da edição. O desentendimento entre as duas partes não é de agora. O CHLC apoia a decisão do Governo de fechar a maternidade e transferir os partos para a Estefânia até à construção do futuro Hospital Oriental de Lisboa, ainda sem data prevista. Os médicos opõem-se.

A decisão sobre o encerramento está iminente, garante Ricardo Sá Fernandes, advogado que interpôs em janeiro uma providência cautelar contra o fecho, juntamente com um grupo de 30 cidadãos, entre os quais o ex-ministro da Saúde Correia de Campos ou o bastonário da Ordem dos Médicos José Manuel Silva.»
expresso 22.06.13

Impacto da crise na Saúde


Aumento da depressão, falta de aposta nos cuidados primários, desigualdade no acesso à Saúde
O Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) publicou esta semana um relatório sobre a evolução dos cuidados de saúde e a análise da governação no último ano. A coordenadora, Ana Escoval, deixa o alerta: a crise está a deixar os portugueses mais doentes e com menos cuidados. E quem não tem dinheiro tem menos acesso à Saúde. O ministro faltou à apresentação do documento na terça-feira, não ouviu o aviso, mas já prometeu estudar o assunto.
O Observatório afirma que a crise está a ter um impacto na Saúde. De que forma?
Há uma dificuldade expressa pelas pessoas na sua deslocação a tratamentos. Não têm recursos para pagar o transporte até às unidades de saúde e as taxas moderadoras. A conjugação destes dois custos, acrescidos das despesas que têm com os medicamentos, e numa situação de empobrecimento geral, faz com que tenham cada vez mais dificuldade em fazer os tratamentos.
O custo das taxas moderadoras é demasiado elevado?
É. Estamos a assistir a situações de pessoas que vão aos serviços de saúde só em último caso porque o dinheiro não é suficiente. Quando chegam à urgência estão mais doentes.
A taxa deve baixar?
Penso que as taxas moderadoras não devem existir. Na altura em que foram criadas, não tínhamos sistemas de informação tão desenvolvidos que nos permitissem perceber com rigor as situações em que as pessoas estavam a procurar os serviços sem necessidade. Hoje já temos forma de perceber isso. Se uma pessoa se deslocar às urgências dez vezes num mês é preciso saber se isso aconteceu porque a sua situação não ficou resolvida, e nesse caso a culpa é dos cuidados prestados, ou se aconteceu porque gosta de ir ao hospital, e aí a pessoa deve pagar. De resto, não. As taxas estão a ser um obstáculo real no acesso aos cuidados.
A crise pode aumentar a mortalidade?
Os estudos mostram que as crises arrastam consigo um aumento do suicídio e um agravamento de algumas doenças. Nós detetámos indícios de que isto está também a acontecer em Portugal. Fizemos um questionário a idosos que têm de tomar pelo menos um medicamento por dia e verificámos que muitos estão a espaçar a toma, o que significa que a sua doença vai agudizar-se. Muitos clínicos Segundo um inquérito feito pelo Observatório, um terço dos idosos reduziu os cuidados de saúde e a toma da medicação por falta de dinheiro É preciso avaliar o impacto da crise na saúde mental e publica dados alarmantes de uma unidade de saúde no Alto Minho: de 2011 para 2012 os casos de depressão aumentaram 30% e as tentativas de suicídio subiram 35% entre os homens e 47% entre as mulheres O relatório critica “ausência de efetiva prioridade política a este nível”, nomeadamente o atraso na abertura de novas USF Hospitais privados discriminam doentes da ADSE, que esperam mais tempo por uma consulta e pagam mais pelos exames dizem-nos que de facto já está a haver um agravamento. É fundamental monitorizar o que está a acontecer para podermos antecipar as respostas necessárias. Até porque a crise veio modificar as necessidades de cuidados e o sistema tem de se adequar.
O que mudou?
Se o nível de vida das pessoas se agrava é natural que haja mais dificuldade no acesso aos cuidados e, por outro lado, uma transferência para o Serviço Nacional de Saúde de pessoas que antes recorriam ao privado.
O SNS está preparado para esse aumento da procura?
Ao nível dos cuidados de saúde primários, está a ser feita uma aposta menor na abertura de novas Unidades de Saúde Familiar (USF), o que não nos parece que esteja a ajudar. Há um conjunto de USF que aguardam autorização para entrar em funcionamento e essas autorizações tardam.
O relatório alerta para o impacto da crise ao nível da saúde mental. O que pode acontecer?
É natural que a crise tenha um impacto significativo no aumento dos casos de depressão. Isso também está estudado internacionalmente. As pessoas veem-se a empobrecer, perdem o trabalho, sentem-se desmotivadas e tristes. As Unidades de Saúde Familiares e de cuidados na comunidade têm de apoiar estes doentes nos seus domicílios e tem de haver recurso a outros profissionais, como psicólogos, para evitar uma escalada no consumo de antidepressivos e um aumento do suicídio.
Segundo o relatório, os cortes na Saúde foram além do previsto no memorando da troika. Foi-se longe de mais?
O próprio FMI reconhece que os cortes têm impactos significativos que não são bons para as populações. Se ainda fomos além dos cortes previstos pela troika, é preciso perguntar se era necessário. A nós parece-nos que não. E era necessário ir tão depressa? Também não. Um corte progressivo na despesa, ao mesmo tempo em que iam acontecendo alterações que melhorassem a eficiência, traria de certeza menos dor e respostas mais adequadas. O país cortou nas áreas sociais a uma velocidade que excedeu o que seria desejável. Fomos muito bons alunos da troika, mas não sei se os resultados daqui a alguns anos não vão mostrar que estes cortes tão abruptos provocaram um impacto muito penoso na população.
Ainda há margem para cortar mais na Saúde?
Não. Em termos de despesa, estamos ao nível de 2006. Temos hoje uma população mais pobre, mais envelhecida, com mais doenças crónicas e com maior necessidade de cuidados. Não há margem para cortar mais. Portugal gasta per capita menos em saúde do que a média da OCDE. Se gastamos menos e temos bons resultados em Saúde, significa que até somos eficientes e temos estado a gastar bem o nosso dinheiro...
O relatório denuncia desigualdades no acesso à Saúde, nomeadamente entre os doentes que têm dinheiro para pagar tratamentos e exames no privado e os que não têm. O dinheiro condiciona os tratamentos?
Não temos dúvidas de que quem tem dinheiro tem acesso prioritário à Saúde. Se uma pessoa não tiver dinheiro para pagar num privado um exame fundamental para o diagnóstico como uma colonoscopia, é quase impossível conseguir marcá-lo num tempo clinicamente aceitável. Não é razoável que a pessoa não tenha a sua doença devidamente diagnosticada e tratada só porque não tem dinheiro. Mas isso está a acontecer. Nós fomos testar isso e a verdade é que não conseguimos, enquanto doentes do SNS, marcar uma colonoscopia em nenhum convencionado da região de Lisboa. Quando tentámos marcar no privado, percebemos que se fôssemos através da ADSE só tínhamos vaga daí a 100 dias. Quando perguntámos “então e se eu pagar do meu bolso?” “Se pagar, pode fazer já”, responderam.
Isso também acontece no caso das cirurgias?
Nos últimos anos o país foi-se apetrechando com sistemas de informação que melhoraram significativamente a resposta à população porque permitem gerir as listas de espera de acordo com a prioridade clínica. Esse critério também foi introduzido para as consultas. É preciso criar o mesmo sistema para os meios complementares de diagnóstico e terapêutica. Mas apesar das melhorias ao nível das cirurgias e das consultas, também verificamos que está a haver a esse nível um aumento das listas de espera, provavelmente devido à maior procura dos hospitais públicos.
Como interpreta o facto de a apresentação do relatório não ter contado com a presença do ministro ou de um secretário de Estado da Saúde?
Lamento profundamente.
Acha que o Governo está a descurar o impacto da crise?
Fiquei muito contente ao ouvir o ministro dizer ontem (quarta-feira) que vai avançar com um estudo aprofundado para avaliar o impacto da crise. É isso que nós temos vindo a pedir. É isso que outros países estão a fazer, que a Organização Mundial de Saúde recomenda e que está a tardar em Portugal.
texto Joana Pereira Bastos, foto Jorge Simão, expresso 22.06.13


Administradores avisam

mais horas de trabalho vão aumentar custos dos hospitais
«Administradores Hospitalares dizem que medidas não podem ser avulsas e receiam que os hospitais não tenham capacidade para pagar o alargamento do horário de trabalho para as 40 horas semanais
A presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), Marta Temido receia que o aumento das horas de trabalho se vá traduzir em mais custos para o setor e considera que a redução dos trabalhadores menos qualificados teria "consequências devastadoras".
À frente desta associação há um mês, Marta Temido defende uma política estratégica para os recursos humanos, lembrando que estes são responsáveis por 70 por cento das despesas nos hospitais.
Em entrevista à agência Lusa, a administradora do Hospital de Cantanhede manifestou-se contra "medidas avulsas" nesta área e disse recear o impacto do anunciado alargamento do horário de trabalho para as 40 horas semanais.
"Trabalhar mais não significa produzir mais, mas por uma lógica normal, trabalhar mais horas irá trazer uma maior quantidade de cuidados de saúde produzidos. Será que temos a capacidade de a pagar", questionou.
Para Marta Temido, "para o alargamento do horário de trabalho ser rentável não basta contar com mais horas de força de trabalho. É preciso contar com os custos de exploração concretos: custos com consumíveis, por exemplo. E são mais custos".
Por outro lado, avançou, os profissionais "podem estar mais horas disponíveis e nem por isso estarem a trabalhar com eficiência".
"Discutimos tanto as horas que as pessoas estão a trabalhar e não discutimos o que estão a fazer dentro das horas de trabalho disponíveis", disse, defendendo uma análise do desempenho para saber como estão organizadas e o que estão a fazer.
Questionada sobre a saída de trabalhadores menos qualificados, no âmbito da reforma do Estado, Marta Temido disse que esta teria "consequências devastadoras".
Isto porque, "hoje em dia, a atividade dos hospitais reside muito no trabalho em equipa, mais do que no ato de saúde do médico, enfermeiro ou técnico", lembrou.
"Pensar que vamos abdicar de profissionais menos diferenciados por restrições financeiras significa que se vai aceitar que profissionais mais diferenciados vão ter de fazer também esse trabalho, porque alguém vai ter de o fazer, o que é tudo menos eficiente", disse.
A administradora exemplificou: "Se prescindo de ter um enfermeiro no gabinete da consulta para apoiar o médico, então assumo que o médico vai fazer as tarefas da consulta que está a fazer e realizar um conjunto de atividades que o enfermeiro poderia fazer".
"Se eu assumo que prescindo [dos assistentes operacionais] estou a aceitar que o médico vai chamar os doentes para a consulta e preencher ele determinados papéis administrativos. É para isso que pagamos aos médicos? Que os formamos? É para isso que os queremos? É isso que é eficiente?", questionou.
Para a gestora, "a eficiência tem de ser uma opção inteligente e não uma solução de recurso acéfala", mostrando-se apreensiva com a desmotivação dos profissionais.
Marta Temido atribui parte desta desmotivação à forma como algumas medidas têm sido explicadas aos profissionais, como o controlo da assiduidade.
"Algumas medidas incontornáveis em qualquer empresa -- como o controlo biométrico de assiduidade -- talvez tenha sido implementado da forma menos boa, como um instrumento de controlo e de tortura e não explicado como um instrumento.» 
07.06.13 link

Excelente intervenção da nossa presidenta. Lufada de ar fresco. Ouvir quem tem algo acertado para dizer.
Metem dó os trapalhões que somos obrigados a ouvir todos os dias. Cortes a eito e medidas avulsas, paradigma desta política de saúde acéfala.
Clara

CSP, risco de degradação da reforma

O risco de degradação da reforma dos cuidados de saúde primários parece persistir. Segundo um estudo que vem sendo atualizado anualmente, desde 2009, (Biscaia et al., 2013), sobre a satisfação dos coordenadores das USF, tem havido um aumento da insatisfação relativamente ao papel do Ministério da Saúde e dos organismos da Administração Central, no que se refere à atuação destes relativamente à reforma dos cuidados de saúde primários.Esse risco é igualmente visível através dos dados que indicam que durante o ano de 2012, em 34,3% das USF cujos coordenadores participaram no estudo, faltou material considerado básico para a atividade normal, mais de dez vezes no ano (Biscaia et al., 2013).
Relatório OPSS 2013 link

ERS, estudo


Valor pago pelo SNS aos convencionados caiu 14%
A Entidade Reguladora da Saúde (ERS) procedeu à avaliação actualizada do sector convencionado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) nas áreas mais representativas, em termos de despesa pública convencionada – Análises Clínicas, Diálise, Medicina Física e de Reabilitação e Radiologia –, com especial enfoque nas perspetivas do acesso, da concorrência e da qualidade.
O estudo «Acesso, Concorrência e Qualidade no Sector Convencionado com o SNS: Análises Clínicas, Diálise, Medicina Física e Reabilitação e Radiologia», publicado no site da ERS link, conclui que o valor pago pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) às entidades convencionadas caiu 14% entre 2011 e 2012, para 506 milhões de euros.

TM, 14 de Junho de 2013

Sakellarides lamenta "autosuficiência do governo"

Ex-coordenador do Observatório do Sistema de Saúde, que amanhã faz um balanço da situação do país, lamenta "autosuficiência do governo"
Faz um ano que o Observatório Português dos Sistemas de Saúde avisou que a austeridade estava a fazer mal à saúde e que havia sinais de racionamento implícito no SNS, não por ordem da tutela mas por pressões financeiras que não permitiam manter as boas práticas. Amanhã o observatório apresenta um novo relatório. Constantino Sakellarides dirigiu o projecto até ao ano passado e saiu para dar vez a outras lideranças. Mas acredita que há um alerta por escutar: um governo não pode ser alérgico a críticas e negá-las sem contraditório.
Continua a haver racionamento implícito no SNS?
A queixa no ano passado era haver indícios e as autoridades não os investigarem. Este ano presumo que o relatório possa repetir a crítica, o natural é que persistam esses sinais: estão subjacente à lógica de pressão financeira. O essencial é que não parece ter havido investigação. Não existe um relatório a reconhecer as queixas e a dizer que umas são verdade e outras não.
O que impede essa investigação?
Os poderes não estão habituados ao contraditório. Geralmente as criticas vêm da oposição, o que faz com que confrontados com reparos fundamentados usem a resposta política de que os outros estão contra ou a dizer mal. Contribui também para isso uma certa inércia das forças políticas. A crítica da oposição politica por exemplo em relação a saúde é um deserto.
O título do relatório do ano passado era "Um país em sofrimento". Acha que contaminou a leitura da tutela?
O Secretário de Estado não gostou nada mas o título corresponde à realidade. Só quem anda noutro mundo é que não compreende que um país com 18% de desempregados, sucessiva austeridade, aumentos de impostos, jovens a sair em carruagem, está em sofrimento. Os sinais de sofrimento social são intensíssimos.
Mas o relatório era sobre saúde.
As ameaças de saúde vêm do sofrimento social. Desemprego e o empobrecimento são determinantes de saúde e do acesso.
Ficou desiludido com o seguimento dado ao relatório?
O que me confrange é o esforço e o cuidado que tivemos em classificar o que encontrámos, evitando críticas infundadas. Dizemos que há coisas a acontecer e, noutros casos, que há indícios. O relatório merecia ter sido colocado em cima da mesa pelo governo, que até nos poderia ter chamado. O governo tem de estar aberto a visões externas.
Este governo é menos aberto?
Não noto muitas diferenças, há é um contexto nacional e europeu bloqueado que faz com que os traços de auto-suficiência se acentuem. Existe uma história oficial que anda à volta das dificuldades dos programas de ajustamento, que vê os seus méritos e tem dificuldade em aceitar os fracassos. Esta história vem-se afastando cada vez mais do que as pessoas sentem, da história real.
Como vê a postura de Paulo Macedo?
É, como dizem as sondagens, o melhor ministro do governo. É inteligente e bom gestor, mas gostaria que estas qualidades se transmitissem ao governo e que o ministério da Saúde não importasse as coisas más do governo, auto-suficiência, e reacções epidérmicas a críticas.
Vê margem para uma atitude diferente?
Esta postura de negação tem sido do conjunto do governo e nenhum ministro pode sair dessa sombra. Percebo que o ministro tenha dificuldades mas devia fazê-lo. Só assumindo que austeridade tem efeitos negativos é que melhoramos.
Está mais preocupado?
Julgo que pouco se alterou. Mas há aspectos positivos. Já no ano passado o relatório destacava avanços na área do medicamento, racionalização de recursos, redução de dívida. O que nenhum governo pode presumir é que é tão bom que só faz as coisas bem e nem estar disponível para ouvir críticas. Foi isso que aconteceu no ano passado.
O SNS está pior nestes dois anos de troika?

O problema não são os cortes que o SNS sofreu nos últimos anos, mas terem sido abruptos. Uma coisa era cortar-se com calma para dar tempo a reorganização. Cortar como se cortou deixa marcas e é preciso avaliá-las e defender o SNS de mais cortes. O ministro protegeu o orçamento deste ano, é verdade, mas o aumento das taxas não protege o acesso. Não há preto e branco, como o governo e oposição gostam de descrever as coisas. Há coisas boas e más e pessoas razoáveis têm de o admitir.
I, 17.06.13

Estudo alargado sobre impacto da crise

OPSS and the future ‘flack’ analysis or the ‘walk’ story... 
Relativamente ao Relatório de Primavera de 2013 do OPSS link o ministro Paulo Macedo acusou o toque e ripostou que “…temos de fazer um estudo mais alargado sobre o impacto da crise e vamos fazê-lo". link 
Aí temos a velada ameaça de ‘reescrever’ a história. Ou a de ‘inculcar’ a história dos anos de crise do SNS com as demagogias neoliberais sobre sustentáveis ‘ajustamentos’. 
 Esperemos que não vá buscar, ao Pingo Doce, o ‘admirável’ cronista Mendes Ribeiro… 

E-Pá!

Relatório Primavera 2013

O Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) cumpre, pelo décimo quarto ano consecutivo, a sua missão de analisar, de forma independente e objetiva, a evolução do sistema de saúde português e os fatores que a determinam.
O OPSS escolheu este ano como título para o RP 2013
"Duas Faces da Saúde".link
Este relatório procura mostrar a situação que se vive neste momento de grave crise, onde parecem coexistir dois mundos – o oficial, dos poderes, onde, de acordo com a leitura formal, as coisas vão mais ou menos bem, previsivelmente melhorando a curto prazo, malgrado os cortes orçamentais superiores ao exigido pela Troika e a ausência de estratégia de resposta às consequências da crise na saúde da população; e um outro, o da experiência real das pessoas, em que temos empobrecimento, desemprego crescente, diminuição dos fatores de coesão social, e também uma considerável descrença em relação ao presente e também ao futuro com todas as consequências previsíveis sobre a saúde.
Perante esta clivagem parece haver uma parte do SNS que se está a degradar, mas há ainda uma outra em que a resiliência domina. Até quando?
Esta preocupante dúvida necessita de uma obrigatória reflexão que nos deverá conduzir a um SNS renovado, melhorado, modernizado e com futuro.
Coordenação: Ana Escoval, Manuel Lopes e Pedro Lopes Ferreira

Caos

no sistema de informação das unidades de saúde.
Profissionais e cidadãos “à beira dum ataque de nervos”
 Se dúvidas existissem acerca da capacidade do Ministério da Saúde e seus departamentos para as tarefas de desenho, atualização e manutenção das várias aplicações que constituem o Sistema de Informação das Unidades de Cuidados de Saúde Primários, as últimas semanas afastaram todas as dúvidas referentes ao pior dos cenários que qualquer observador avisado já previa há muito.
O caos instalou-se na maioria das unidades e, precisamente, nos aspetos mais sensíveis do atendimento aos cidadãos – acesso aos ficheiros clínicos e registos dos médicos (SAM), ao sistema de apoio à prática de enfermagem (SAPE) e ao módulo de prescrição de medicamentos.
Em todo o país, o panorama caracteriza-se por uma assinalável e comprometedora lentidão no acesso e desempenho das várias aplicações, principalmente quanto à prescrição de medicamentos e MCDT, erros técnicos de escrita, sucessivos e frequentes bloqueios do sistema obrigando a reiniciá-lo, desmultiplicação da maioria das receitas admitindo apenas um medicamento em cada uma, levando assim a um consumo irracional de papel (e tonner) para cada consulta.
Contudo, na área da ARS do Norte o problema agravou-se de forma muito preocupante.
O projeto autónomo desta ARS de concentrar num único data centerregional toda a informação dispersa pelos múltiplos servidores existentes nos centros de saúde da região sem que para tal tivessem sido previstos os possíveis imponderáveis e tomadas todas as medidas de segurança que uma decisão como esta aconselhava, ocasionou um completo caos nos serviços onde, para além das perturbações decorrentes da lentidão do sistema, se verifica, em muitas unidades, a impossibilidade de acesso à ficha clínica dos utentes e, quantas vezes, ao desaparecimento de informação relevante.
Trata-se duma situação gravíssima que coloca os médicos a trabalhar em situação de risco, uma vez que tais bloqueios podem comprometer o acesso a informação relevante e, desta forma, a própria segurança dos cidadãos. Já para não falarmos sobre o permanente e prolongado stress a que todos os profissionais estão a ser expostos.
Acontece que a ARS do Norte é uma grande empresa, que tem como missão garantir à população da Região Norte o acesso à prestação de cuidados de saúde, e que envolve a responsabilidade pela gestão dum orçamento de funcionamento superior a mil e duzentos milhões de euros (2012).
Alguma grande empresa com um “volume de negócios” deste nível avançaria para uma operação de manutenção da sua base de dados com semelhante leviandade? Sem se debruçar sobre os cenários possíveis e planos alternativos para minimizar os riscos (prejuízos)? Alguma grande empresa poderia dar-se ao luxo de semelhante desperdício?
E que atitude tomam os seus dirigentes perante semelhante descalabro?
Até agora nem uma palavra de informação, justificação, pedido de desculpas, agradecimento aos seus profissionais médicos e de outras profissões, pela forma quase heroica como diariamente dão a cara e procuram minimizar, à custa dum enorme esforço, os constrangimentos com que a administração os contempla.
Afinal, é a imagem do SNS e a qualidade dos serviços prestados que estão em causa. Uma preocupação dos seus profissionais que, pelos vistos, não é acompanhada pela administração.
Apenas dá respostas aos jornalistas dizendo que o problema estaria resolvido até ao final da semana que terminou no dia 14. Não cumpriram.
A FNAM, através dos três sindicatos que a constituem, alerta os médicos que devem estar atentos às eventuais condições de insegurança no desempenho do seu trabalho, e que reportem por escrito todas as limitações e situações de eventual conflitualidade aos Presidentes dos Conselhos Clínicos e da Saúde e Diretores Executivos dos ACES.
As USF e UCSP deverão ainda fazer uma análise cuidada dos eventuais reflexos que estes constrangimentos poderão ter nas metas contratualizadas e, caso tal se verifique, exigir fundamentadamente uma revisão das mesmas e da Carta de Compromisso assinada para o corrente ano.
Como sempre os gabinetes jurídicos dos nossos sindicatos estarão à disposição dos associados.
 Coimbra, 18 de Junho de 2013
 A Comissão Executiva da FNAM

Por uma carta dos direitos e deveres

dos cidadãos relativos à saúde 
 A Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Dívida (IAC), que desde a sua fundação em Dezembro de 2011 tem vindo a trabalhar para conhecer e dar a conhecer a dívida pública (ver o Relatório “Conhecer a dívida para sair da armadilha” — link), lançou, em conjunto com outras organizações, a campanha Pobreza não paga a dívida: renegociação já! 
 Responde esta campanha à necessidade sentida pela IAC de complementar o trabalho de estudo e análise da dívida pública, que prosseguirá, com mais debate público sobre as causas e as consequências da dívida e mobilização pela sua renegociação com a participação dos cidadãos. 
 A campanha envolve uma petição dirigida à Assembleia da República, instando-a a pronunciar-se pela abertura urgente de um processo de renegociação da dívida pública, pela criação de uma entidade para acompanhar a auditoria à dívida pública e o seu processo de renegociação e pela garantia de que nestes processos existe isenção de procedimentos, rigor e competência técnicas, participação cidadã qualificada e condições de exercício do direito à informação de todos os cidadãos e cidadãs. 
 Trata-se de fazer ouvir em S. Bento uma opinião e uma vontade que acreditamos ser maioritária na sociedade portuguesa. 
 É certo que quando tudo está a arder uma petição parece pouco. No entanto, com um número pouco usual de assinaturas, a petição terá força. Confrontando os membros da Assembleia da República com as suas responsabilidades, poderá acordá-los para a necessidade de não fazer o que os credores querem. 
 A petição pode ser subscrita online em pobrezanaopagaadivida.info/index.html 
 Pode parecer estranho, numa altura em que os critérios económicos suplantaram os valores humanistas no processo de tomada de decisão, trazer à liça a necessidade de uma “Carta dos Direitos e Deveres dos Cidadãos Relativos à Saúde”, no entanto, creio que é precisamente nestas alturas que é mais necessário ter documentos referenciais claros. Não falo apenas de direitos dos doentes, mas de todos os cidadãos, porque todos nós somos potencialmente doentes e porque esta carta deve abranger também a promoção da saúde e a prevenção da doença. Já existe muita legislação sobre esta matéria, mas parece-me importante condensar esta legislação e reconhecer novos direitos e deveres, que sirvam de filtro a todas as decisões a todos os níveis que interfiram na saúde dos cidadãos. 
 A primeira proposta de uma carta deste género foi elaborada por mim e pela prof .ª Paula Lobato Faria, em 1992, por encomenda do então ministro Arlindo de Carvalho, mas nunca chegou a ser publicada. A Direcção-Geral da Saúde tem no seu sítio uma carta dos direitos e deveres dos doentes, mas não tem existência legal. A responsabilidade e competência para elaborar esta carta está atualmente atribuída à Entidade Reguladora de Saúde (ERS), que elaborou uma proposta em 2011, tendo-a enviada ao Parlamento, mas também nunca chegou a ser publicada. 
 Entre a legislação dispersa que consagra alguns direitos gerais no que concerne à saúde, temos a própria constituição que estabelece os princípios da universalidade, generalidade e gratuitidade tendencial no acesso aos cuidados de saúde, no âmbito do Serviço Nacional de Saúde (SNS), assim como direitos mais específicos que se encontram revertidos na Lei de Bases da Saúde. Em 1985 foi legislado sobre o direito ao acompanhamento da mulher grávida durante o trabalho de parto. A Lei de Bases da Saúde, publicada em 1990, estabeleceu os direitos à proteção na saúde, à promoção da saúde e prevenção das doenças, à educação para a saúde, à igualdade no acesso aos cuidados de saúde, à equidade na distribuição de recursos e utilização de serviços, a medidas especiais relativamente aos grupos de maior risco, à liberdade de escolha no acesso à rede nacional de prestação de cuidados de saúde, a recusar tratamentos, a ser tratado humanamente, com prontidão, correção técnica, privacidade e respeito, à confidencialidade dos dados pessoais, a receber assistência religiosa e ao direito de reclamação. A mesma Lei de Bases da Saúde garantiu a participação dos indivíduos e da comunidade na definição da política de saúde e planeamento e no controlo do funcionamento dos serviços, o direito à defesa dos seus interesses através de entidades que os representem, a reunirem-se em associações para a promoção e defesa da saúde, assim como a possibilidade de intervenção ao mais alto nível através do Conselho Nacional de Saúde, no funcionamento das entidades prestadoras de cuidados de saúde e como órgão de consulta do Governo. Ainda na mesma lei aparecem consignados alguns deveres como sejam o do respeito pelos direitos dos outros utentes, de observação das regras sobre a organização e o funcionamento dos serviços e estabelecimentos, colaboração com os profissionais de saúde em relação à sua própria situação, utilização dos serviços de acordo com as regras estabelecidas e pagamento dos encargos que derivem da prestação dos cuidados de saúde, quando for caso disso. 
 Posteriormente, algumas outras leis definiram novos direitos e deveres: a Lei da Saúde Mental, aprovada em 1998, regulou o internamento compulsivo dos portadores de anomalia psíquica, a lei do enquadramento-base das terapêuticas não convencionais, publicada em 2003, estabeleceu os direitos dos utilizadores deste tipo de terapias, a lei sobre informação genética pessoal e informação de saúde, de 2005, definiu o “conceito de informação de saúde e de informação genética, a circulação de informação e a intervenção sobre o genoma humano no sistema de saúde, bem como as regras para a colheita e conservação de produtos biológicos para efeitos de testes genéticos ou de investigação”. Em 2006, uma lei veio prevenir, proibir e punir a discriminação em razão de deficiência e da existência de risco agravado de saúde. 
 Em 2007, pela Carta dos Direitos de Acesso aos Cuidados de Saúde pelos utentes do SNS, o Ministério da Saúde comprometeu-se a estabelecer, por portaria, os tempos máximos de resposta garantidos para todo o tipo de prestações sem carácter de urgência. Ainda, em 2007, foi regulado o acesso aos documentos administrativos e a sua reutilização. Em 2009 foi publicada a lei que estabeleceu o regime do acompanhamento familiar de crianças, pessoas com deficiência, pessoas em situação de dependência e pessoas com doença incurável em estado avançado e em estado final de vida em hospital ou unidade de saúde. No mesmo ano foi reconhecido o direito de acompanhamento dos utentes dos serviços de urgência do SNS. Em 2012 foram regulados os requisitos de tratamento de dados pessoais para constituição de ficheiros de âmbito nacional, contendo dados de saúde. Também neste ano foi estabelecido o regime das diretivas antecipadas de vontade em matéria de cuidados de saúde. 
 A nível europeu a Carta Social Europeia do Conselho da Europa, de 1996, a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia, proclamada em 2000, e a diretiva europeia de 2011 relativa ao exercício dos direitos dos doentes em matéria de cuidados de saúde transfronteiriços, são os documentos gerais mais relevantes. 
 Parece-nos assim fundamental que a ERS atualize a carta que propôs em 2011 e que o Parlamento a aprove, para que os cidadãos, as organizações e os profissionais tenham um documento síntese de referência que explicite os principais direitos e deveres de todos os cidadãos no que respeita à sua saúde.

Luís Campos , JP 17.06.13

Paulo Macedo, maior desilusão

Sobre o futuro do nosso Sistema de Saúde constatam-se, essencialmente, três posições: 
a) Melhoria do actual modelo: Reforço da cobertura (áreas mais frágeis) e do financiamento público. Manutenção de tudo, mais ou menos, como está; 
b) Reforma do actual modelo: Para manutenção do actual modelo de saúde são necessárias reformas visando a sua sustentabilidade e adaptação ao tempo presente; 
c) Substituição do actual modelo: Retirar ao estado a provisão de cuidados, transferindo-a, quanto possível, para os prestadores privados. Introdução de mecanismo de competitividade e mercado (opting out, reforço dos seguros) de forma a alijar os encargos do estado com o financiamento do sistema. 

Vêm estas considerações a propósito dos dois anos de governação do ministro da saúde, Paulo Macedo, que uma recente sondagem realizada para o Expresso e SIC considerou como o melhor ministro do XIX governo constitucional. link 
 Do resultado deste trabalho de auscultação de opinião dos portugueses várias conclusões se podem tirar: 
a) Duvidar do método. Considerar, por exemplo, como segundo melhor ministro, Miguel Macedo, responsável pela carga selvagem de porrada aos portugueses postados frente à AR, é obra. Mesmo tendo em atenção a situação de provocação excepcional ocorrida. 
b) Discordar do resultado. A maioria dos portugueses, que se preocupa com estas coisas, acreditou de inicio na capacidade do ministro em desenvolver reformas necessárias à sobrevivência do SNS. Demasiado cauteloso porém, Paulo Macedo deixou esgotar dois anos de governação sem conseguir qualquer mudança de fundo apreciável. Quedou-se pela implementação de pacotes de medidas de cariz administrativo, embora justas, mas nem sempre com a proporcionalidade e oportunidade desejáveis. Transmitindo-nos sempre a sensação de estarmos em presença da governação do seu secretário de estado, Manuel Teixeira, promovido a ministro da saúde. 
c) Concordar que, apesar de tudo, houve sensatez suficiente na Saúde em não se embandeirar em arco com a política “além da troika” de Passos Coelho. E, neste sentido, Paulo Macedo ter dado aos portugueses, ajudado por doses maciças de propaganda, a sensação de herói defensor do SNS, da salvaguarda de experiências mais radicais que só poderiam redundar em desastrosos fracassos para a Saúde (talvez o resultado da referida sondagem traduza este sentimento dos portugueses). 
d) Concluir: Falta avaliar o resultado dos cortes profundos (a eito), promovidos por Paulo Macedo, no funcionamento, a médio prazo, do nosso sistema de saúde. Na certeza porém que o impasse quanto ao seu futuro se mantém como há dois anos atrás. Gorada que foi a grande expectativa inicial dos portugueses em relação ao actual ministro da saúde. 
Clara

Cortar na Saúde?

A "factura será muito alta no futuro"
"Se não providenciarmos cuidados de saúde agora, mais tarde será muito mais caro cuidar destas pessoas", defende o especialista Jeffrey Lazarus.
Os cortes nas despesas de saúde em tempo de crise vão implicar uma factura muito alta a pagar no futuro, afirma Jeffrey Lazarus, professor da Universidade de Medicina de Copenhaga, na Dinamarca.
 “Se as pessoas não estão saudáveis, a doença pode voltar e morde-lhes a cauda. Por isso, se não providenciarmos cuidados de saúde agora, mais tarde será muito mais caro cuidar destas pessoas, tratar do cancro ou de outros problemas”, diz Jeffrey Lazarus, que participou numa conferência sobre o futuro dos sistemas nacionais de saúde, esta semana, no Porto.
“Alguém terá de pagar ou as pessoas podem não viver. Se pode a Europa continuar a ter um sistema público de saúde? Claro que pode. Sei que estamos em tempo de crise, mas isso não pode significar abandonar os cuidados de saúde.”
O também director do secretariado permanente do Health Systems Global avisa que “quando não criamos condições de saúde à população, mesmo em países desenvolvidos, as pessoas ficarão doentes e os custos da cura serão bem mais elevados” e a “factura será muito alta no futuro”.
Em tempo de crise os cuidados de saúde têm uma importância ainda maior. Não criar condições para que toda a população tenha acesso ao básico pode potenciar um futuro cheio de problemas, afirma Henrique de Barros, director do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP),
“Em momentos de crise há repercussões, a médio prazo, muito marcadas no estado de saúde e sabemos também que isto se vai pagar, a médio prazo, com um abaixamento desses indicadores de saúde, a não ser que se faça rapidamente um esforço grande, sobretudo, assegurar que as pessoas que estão menos municiadas para utilizar sejam procuradas activamente.”
Segundo o professor Henrique de Barros, devem ser os próprios serviços de saúde a procurar quem mais precisa de cuidados: “Nós já sabemos que as crianças, as pessoas mais velhas, mais pobres, os imigrantes, ou seja, aquelas pessoas que estão em situações de maior vulnerabilidade vão ter piores indicadores de saúde”. 
Henrique de Barros defende a importância da prevenção e considera que em tempo de crise é preciso usar e aplicar os parcos recursos naquilo que pode ser valorizado mais tarde.

RR 15.06.13 link

"Health Systems Global, the new international society for health systems research" link

Fica mais um aviso.
 
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