Critica do ministro da saúde

Misericórdia do Porto ofereceu-se para gerir Centro de Reabilitação do Norte e está à espera da resposta do Governo. 
Oito ex-responsáveis da Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte estranham a coincidência temporal entre as críticas há dias feitas pelo ministro da Saúde ao processo de construção do Centro Materno-Infantil (CMIN) e o Centro de Reabilitação da Norte (CRN) e a “grave crise” que se adivinha “no sector da saúde privada no Porto”, onde “muitos blocos de parto e áreas de atendimento infantil” recentemente abertos estão “encerrados”. A construção destes dois equipamentos denota “falta de planeamento” e “uma total descoordenação”, declarou o ministro Paulo Macedo, no dia 20. linkNuma carta pública, os oito elementos directivos da ARS-Norte entre 2005 e 2011 disponibilizam-se para fornecer ao governante todas as informações sobre os centros, que, notam, são “objecto de inúmeros interesses”. A “falta de avaliação dos processos e a ausência de decisões na reforma hospitalar, por parte do actual Ministério da Saúde, parecem ceder aos interesses privados e do sector social nesta área, com nítido prejuízo dos doentes”, lamentam. Sobre o CMIN, lembram que faz parte de “uma vasta estratégia da reforma hospitalar na região norte, levada a cabo nos últimos anos”, e que implicou já o fecho do Hospital Maria Pia. Quanto ao CRN, recordam que este estava previsto na rede de referenciação hospitalar elaborada em 2002 — que estabelecia a necessidade de quatro centros (Norte, Centro, Lisboa e Algarve), faltando abrir apenas o primeiro, que servirá “37% da população” do país. “Será que um doente tetraplégico ou com uma doença neurodegenerativa de Lisboa deve ter um centro de reabilitação para efectuar uma recuperação adequada, e no Norte o mesmo tipo de doente tem de ir para sua casa?”, perguntam. Esperam ainda que esta tomada de posição nada tenha que ver com “os falados propósitos de ser cedida a gestão do CRN a uma Misericórdia”. Anteontem, o provedor da Misericórdia do Porto disse que a instituição “já fez sentir” ao Governo a sua disponibilidade para assumir a gestão do CRN. O ministro mostrou abertura para “avaliar a proposta”, adiantou António Tavares. O PÚBLICO tentou obter um comentário junto do gabinete do ministro, que não respondeu, até ao fecho desta edição.
 JP 28.02.13 link

Eu vou


Janeiro 2013



A execução orçamental do SNS, referente a  janeiro 2013, apresenta uma redução  da despesa de 4,5% e um aumento da receita de 4,7%, traduzidos num saldo de € 67,1 milhões (melhoria de € 58 milhões face a janeiro de 2012).

O que pode um país esperar?



O que pode um país esperar de uma combinação letal de incompetência, arrogância, ortodoxia económica e ligação a interesses (...)? O que pode um país esperar de uma troika que insiste em aplicar com afinco uma receita, velha de décadas, que nunca funcionou e cujos estragos só foram minorados quando se dispôs de soberania monetária, de política cambial? O que pode um país esperar de quem disse que tudo no essencial ia bem, ao mesmo tempo que se evaporaram centenas de milhares de empregos, que se fragilizou a contratação colectiva e os direitos sociais (...)? O que pode um país esperar de quem procura disfarçar o que é inevitável e já está, aliás, em curso – uma reestruturação da dívida, mas nos tempos e nos interesses dos credores? É chegado então o momento de o país avaliar os avaliadores, denunciar o memorando e encetar um duro processo negocial que reduza o fardo da dívida e que permita recuperar instrumentos de política económica. Neste contexto, compreende-se que, nas ruas e não só, se insista em afirmar bem alto que “o povo é quem mais ordena”. Talvez no dia de 2 de Março tenha lugar a avaliação que mais conta.
João Rodrigues, economista Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, JP 25.02.13

É tempo de mandar lixar a troika.

Debate, "A saúde dos portugueses"


Paulo Macedo, pure bluff


O ministro da Saúde foi confrontado, no sábado à noite, em Coimbra, com críticas de militantes do PSD às políticas para o sector e, à saída de uma conferência, insultado por três pessoas que o esperavam na rua.
No período de perguntas e respostas das jornadas "Consolidação, Crescimento e Coesão", promovidas pelo PSD, Paulo Macedo foi interpelado por Nuno Freitas, médico, ex-deputado e antigo vereador da Câmara de Coimbra, sobre um alegado aumento de mortalidade nos hospitais.
"Não há qualquer evidência nesse sentido, os dados provisórios [de 2012] não vão nesse sentido", argumentou o governante.
Nuno Freitas também afirmou que o acesso a cuidados de saúde "piorou" no país, mas Paulo Macedo voltou a contrariar esta tese, considerando os dados avançados pelo médico como "subjetivos" e "sem evidência técnico-científica"...
rtp 23.02.13 link

Paulo Macedo bem tenta tapar o sol com a peneira.
Mas os dados publicados recentemente pelo ACSS  linkdeixam claro que o acesso dos portugueses aos cuidados de saúde sofreu rude golpe em 2012: «menor acesso a transplantações, MCDT (ex. fisioterapia e outros), transportes e, sobretudo, a consultas e urgências, menos 1,871 milhões entre urgências, consultas e sessões de HD, já incluindo aumento de 104 mil CE hospitalares. Assim é fácil poupar mas o que vai resultar, no futuro, é aumento de custos e menos saúde.»

Sustentabilidade(s), susceptibilidades e responsabilidades…


Esta equipa do MS é, na verdade, uma autêntica mistificação. Surpreende-se com a própria sombra. Não é só o inefável Leal. Teixeira e Macedo são farinha do mesmo saco.
Seria de rir até às lágrimas se, na realidade, não fosse tristemente dramático o que se passou no Hospital de Braga em relação aos doentes oncológicos. link
Embora as responsabilidades sejam comuns, colegiais e necessariamente solidárias, já que se trata do órgão que superintende as políticas nacionais de saúde, existe – nessa equipa – alguém que tem particulares responsabilidades. Trata-se do médico Leal da Costa um profissional oriundo de uma instituição dedicada a tratamentos oncológicos que conhece quais as consequências de ‘descontinuar’ tratamentos oncológicos com fármacos anti-neoplásicos. Embora desconhecendo no pormenor quais os fármacos que entraram em ruptura de fornecimento e de administração no Hospital de Braga – e segundo denunciou a LPCC em mais 15 Hospitais link– o Dr. Costa não pode alhear-se das situações inerentes à necessidade de, em relação a alguns agentes anti-neoplásicos (quimioterapia), rotineiramente utilizados na terapêutica oncológica (segundo o que a LPCC denunciou), actuar em determinadas fases do ciclo celular – nomeadamente em relação aos ‘ciclo-específicos’ e/ou aos ‘fase-específicos’ - para obter respostas com os padrões de eficácia esperados, quer pelos médicos oncologistas quer pelos doentes. Não é, portanto, tolerável a virginal e púdica ‘surpresa’ da parte de quem – com conhecimento de causa - deveria zelar com particular atenção, cuidado e rigor para que – nesta área específica – não ocorressem ‘soluções de continuidade’ no plano terapêutico.
Claro que toda a equipa ministerial tem indeclináveis responsabilidades nesta lamentável situação, cabendo, por inerência dos cargos que assumiram, a Paulo Macedo as maiores. Quando se referem as ‘indeclináveis responsabilidades’ temos de olhar para o Decreto-Lei n.º 32/2012 de 13 de Fevereiro link, a chamada ‘Lei dos Compromissos’, aprovada pelo XIX Governo Constitucional e subscrita por ‘Paulo José de Ribeiro Moita de Macedo’.
A especial responsabilidade política do Ministro Paulo Macedo deverá ser questionada nos seguintes termos:
- Ao subscrever uma Lei que coloca no topo das prioridades pública a ‘consolidação orçamental’ o que poderá de importante ter ficado para trás?
A inconcebível e intolerável situação denunciada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro que se verificaria em 15 Hospitais do SNS link,colide - no essencial e no fundamental - com os pilares do SNS.
Não basta preocupar-se com a sustentabilidade financeira do SNS e, paralelamente, descurar a sustentabilidade operacional das unidades funcionais.
Enfim, desguarnecer a ‘sustentabilidade social’ deixando os doentes entregues aos ‘cuidados do destino’ (ao deus dará), nem sempre será ‘leal’, justo e misericordioso. Nem em Portugal, nem na 'Macedónia'...
E-Pá!

«Cartilha» da Comissão Europeia


Para usar orçamentos da Saúde de modo eficaz
«Uma vez que as populações vulneráveis já estão desproporcionalmente afectadas pela crise económica e que a doença tem resultados negativos sobre a empregabilidade, devem ser cuidadosamente avaliados os possíveis efeitos» das reformas da Saúde «sobre as populações».
Em causa estão os co-pagamentos, bem como a redução do acesso aos cuidados de Saúde.
O alerta consta do documento divulgado pela Comissão Europeia (CE), um pacote de medidas de «Investimento Social para o crescimento e coesão» para o período compreendido entre 2014 e 2020  link
Esta iniciativa, que visa ajudar os Estados-Membros a utilizar os seus orçamentos sociais e de saúde de forma mais eficiente e eficaz, através da promoção de melhores práticas, tem como componente-chave o lema «investir em saúde» e estabelece o papel da saúde como parte integrante da estratégia «Europa 2020», reforçando a ligação entre as políticas de saúde da União Europeia (UE) e as reformas do Sistema Nacional de Saúde.
Entre as razões apontadas que «ameaçam aumentar as desigualdades entre grupos sociais e entre os Estados-Membros», a CE aponta as «barreiras no acesso aos cuidados de saúde, que muitas vezes são mais significativas nos grupos desfavorecidos/pessoas em situações vulneráveis e nos Estados-Membros menos ricos». Os grupos vulneráveis ou famílias com doentes crónicos são, ainda, «menos protegidas contra pagamentos informais e mais propensos a abandonar o tratamento».
«Priorizar grupos menos favorecidos»
As principais medidas para combater esta situação, defendem os autores do documento, são «priorizar grupos menos favorecidos com políticas para melhorar a qualidade e o acesso aos sistemas de saúde e assegurar rendimentos adequados e condições de vida e de trabalho». Até porque, sublinha a CE «os dados sugerem que a saúde tem um papel significativo na redução da taxa de risco de pobreza» e, além disso, «as desigualdades em saúde representam não só um desperdício de potencial humano, mas também uma enorme perda económica potencial (estimado entre 1,5% e 9,5% do PIB)».
Por fim, adverte a CE, «medidas de consolidação orçamental aplicadas aos sistemas de saúde não devem comprometer o acesso das populações pobres e vulneráveis à elevada qualidade de cuidados de saúde».
Recorde-se que, no passado dia 15 de Janeiro, foi apresentada publicamente uma carta aberta conjunta dos bastonários da Ordem dos Médicos de Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda, para alertar os dirigentes políticos e as autoridades de saúde da Europa para os efeitos da crise na deterioração e no acesso à Saúde, bem como para a necessidade de antecipação dos impactes das medidas que têm vindo a ser tomadas pelos respectivos Governos.
Tempo Medicina 22. 02.2013 

Paulo Macedo começa a mostrar o que é...


 1º Vemos agora a extensão da redução na produção, com muito menor acesso a transplantações, a MCDT (ex. fisioterapia e outros) e transportes e, sobretudo, a consultas e urgências (segundo o quadro do saudesa ao todo houve menos 1,871 milhões entre urgências, consultas e sessões de HD, já incluindo aumento de 104 mil CE hospitalares). Assim é fácil poupar mas o que vai resultar, no futuro, é aumento de custos e menos saúde. link
 2º O técnico, como a imprensa o quer apresentar, afinal não o é. Disse no Porto ontem, cf Público, que o CMIN resultava de mau planeamento anterior e que tinha 30 mil mts quadrados para substituir 8 mil da MJD. Nada mais falso:
   a) Era planeamento  nacional contemplado com investimento comunitário para ser um Centro materno-infantil para a região norte;
   b) Visa substituir a MJD, o HMPia e serviços de pediatria que estavam no HGSA.
   c) Comparado com o H Pediátrico de Coimbra é como um tremoço face a uma  lagosta (30 mil vs 120 mil metros!)
  ... e não me venham dizer que o Sr Ministro não sabia. Manipulação, pura e simples. link
DA

CSP, menos milhão e meio de consultas


Monitorização mensal da Actividade assistencial do SNS - Ano 2012 link
«Crescimento da utilização de consultas médicas dos cuidados de saúde primários: +311.997 utentes utilizaram os cuidados de saúde primários.» . Mais doentes, menos consultas:  -1.446.882 de consultas médicas. Este «crescimento da utilização» dever-se-à (?) à campanha de actualização das listas de utentes dos CSP em curso. 
O MS tenta iludir a hecatombe do atendimento dos CSP (menos milhão e meio de consultas) com esta habilidade do «crescimento da utilização»...

Panhonhas


O PS tem posto o foco apenas na questão aritmética e não nessa negociação.
Desculpe! Toda a lógica de argumentação do PS está assente na necessidade de ser rigoroso na negociação com a troika e bater o pé, coisa que nunca fizemos e que os outros fizeram. A Espanha bateu o pé e a reforma limitou-se ao sector bancário, a Irlanda bateu o pé e manteve o IRC baixo. A troika são pessoas como nós, se têm pela frente uns panhonhas como são os nossos actuais governantes, que não são capazes de bater o pé ou até ficam muitos satisfeitos porque lhes cortaram 600 milhões... O Dr. Portas veio declarar que estava muito satisfeito porque em vez de cortarem 950 milhões lhe tinham cortado 600! Deviam era dizer o contrário, porque estamos agora a iniciar a negociação trilateral [Comissão Europeia, Conselho e Parlamento Europeu]. O parlamento precisa que haja estados ao seu lado para subir a dotação para a Europa e não estados que fiquem satisfeitos quando levam um corte brutal.
Mas há margem para negociar?
Então não há?! Em Bruxelas, na negociação da estrutura orçamental plurianual, agora é o momento de o governo se declarar muito insatisfeito. Dizer que estão profundamente magoados com um corte que é profundamente injusto. Julgam que as coisas que se dizem aqui não se sabem lá? Quando Portugal quiser reclamar dizem: “Vocês já declararam no vosso país que estavam todos satisfeitinhos, por isso não venham cá pedir mais nada.” É de uma incapacidade negocial absolutamente inacreditável.
É essa a ideia que passa por lá, de governantes panhonhas?
Eu acho que sim. São passivos. É um governo que não tem voz activa e que perde as oportunidades. Agora é a oportunidade dos estados que saem prejudicados se se aliarem ao Parlamento Europeu, porque direita e esquerda está toda unida para subir o orçamento. Se aparecerem os países mais prejudicados muito satisfeitos com o chequezinho por baixo da mesa que lhes é passado... Não percebo como é que pessoas inteligentes acham que esta é a conduta que devem ter.
I, 16.02.13  link

Cortes cegos e reforma hospitalar na gaveta

O que pensa do trabalho do Ministério da Saúde?
Na actuação externa, de lidar com os grandes interesses privados, farmacêuticas, farmácias, prestadores privados, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, tem sido exemplar. Teve capacidade de exigir ao sector privado que reformule o seu funcionamento e isso está a acontecer. Tenho pena que esta mesma pressão não esteja a acontecer internamente. O Ministério poupou porque cortou dois ordenados à função pública e fê-lo de forma transversal, com um corte cego. Isto resolve um problema orçamental no curto prazo.
Sobre a Reforma Hospitalar:
Só vejo grupos de estudo. Dois anos e não há plano para a reestruturação. O Santa Maria está numa situação catastrófica, é o maior do país, além das responsabilidades de ensino.
Isabel Vaz, entrevista caderno económico expresso 16.02.13 link

Interesses brutais

...
Como comenta a possibilidade de extinção da ADSE (a protecção na saúde dos funcionários públicos)?
A ESS tem interesses brutais nesse tema, como todos sabem. No curto prazo seria um desastre orçamental porque, em 2011, a ADSE representou na rede privada €490 milhões dos quais 65% financiados pelos beneficiários, e este valor teria de ser gasto pelo Estado na mesma. No longo prazo, é também um grande disparate, é ceder a mais um interesse do lóbi prestador público, que está aflito de doentes. Neste momento a ADSE dá liberdade de escolha entre público e privado. Porque é que os portugueses em geral não exigem isso aos políticos e permitem nivelar por baixo, numa guerra intestina contra os funcionários públicos?
Semanário Expresso, caderno económico 16.02.13

Tal como Pinto da Costa, a inginheira, presidente do “ Espírito Santo Saúde”, sai a terreiro sempre que sente que é necessário defender o campeonato (negócio) e pressionar o ministro da saúde em exercício .
A “fruta” aqui é a ADSE e a chamada liberdade de escolha.
E assim sendo, por mais que se explique que em Saúde não há livre escolha estes liberais de ocasião fingem sempre não entender.
«|na ADSE| A liberdade de escolha pode resultar em prejuízo do utente, dado estarmos longe de um mercado de concorrência perfeita. Não existe soberania do consumidor, o qual tem informação insuficiente sobre o mercado, o produto e os resultados. Fragilizado pela doença e pela dependência do médico, seu “agente”, a sua escolha não é soberana. A ausência de referência médica, combinada com a livre escolha e liberta do preço, induz consumismo, acréscimo de custos e riscos adicionais para o doente. Regista-se, em estudos comparados, que os sistemas de tipo convencionado (“bismarckianos”) apresentam maior custo global e menor equidade.  link

Derrubar o XIX Governo Constitucional

O conceito expedido pelo primeiro-ministro do "razoavelmente em linha com as previsões..." link é absolutamente maquiavélico na medida em que mostra uma destruição pensada e programada da Economia e consequentemente dos postos de trabalho como instrumentos para ‘implantar’ (de forma duradoura como gostam de sublinhar os actuais governantes) um regime neoliberal. É altura de questionar - como tem sido feito noutros Países - as 'finalidades' últimas (objectivas) deste miserável Governo que já abusou ‘razoavelmente (para além do humanamente tolerável) da paciência dos portugueses. Da paciência e da complacência. O derrube do XIX Governo Constitucional tornou-se uma tarefa imperativa e inadiável tendo desvalorizado todas as situações 'prudenciais' (apresentadas aos ‘credores’ como ‘exemplares’) que nos têm contido, como sejam, a necessidade de controlar o deficit orçamental público, o controlo da volumosa dívida externa e a 'estabilidade' política. Hoje é perfeitamente visível para a maioria dos portugueses que, quanto mais adiarmos a 'defenestração' de Coelho e da sua clique, mais problemática e difícil será a resolução da crise onde estamos (e fomos) mergulhados. A 'solução' experimentada (tentada) em Junho de 2011 é, hoje, o nosso maior problema. A existência de um ‘Estado Minímo’ em concomitância com um ‘povo indigente’ não foi (nem julgo que seja algum dia) sufragada. O ‘plano’ em curso passa por uma selvática ‘violentação’ dos cidadãos (nada tem de ‘razoável’) e, como todos os ‘frutos’ daí decorrentes (de violentações), deverá de ser rapida e oportunamente abortado. 
E-Pá!

O povo ainda não começou a partir a loiça

Desemprego


Já se suspeitava e as estatísticas do emprego ontem reveladas pelo INE confirmam-no: Portugal transformou-se num país onde vive mais de um milhão de deserdados de um dos bens mais fundamentais de qualquer sociedade estável e civilizada, o direito ao trabalho.
Haver cada vez mais pessoas sem trabalho é um grave problema económico, mas é também um terrível imposto ético que toda a sociedade está condenada a pagar caro. Para poder vencer a dureza da crise, o país vai ter de ser capaz de saber lidar com a frustração, ou o desespero, de uma franja muito significativa da sua população.
Além da incerteza sobre o ciclo político, as ameaças externas ou a interminável recessão interna, vai ser preciso gerir o ressentimento natural de pessoas a quem,
O drama do desemprego coloca a sociedade perante um dos seus mais difíceis desafios de sempre num ápice, foram cerceadas aspirações e travadas expectativas quanto ao futuro.
Face às limitações financeiras do Estado, aos compromissos assumidos com a troika ou por causa até de alguns dos princípios basilares do pensamento político do Governo, não se espere mais apoio e protecção aos que perderam, ou estão em vias de perder o seu emprego. As teses peregrinas dos que acreditavam que tudo se compunha com a recuperação que deveria ter chegado no final de 2012, ou os que anunciavam o admirável mundo novo do empreendedorismo ou da reindustrialização afundaram-se na severidade da recessão.
Os que não têm trabalho, sejam jovens licenciados ou desempregados de longa duração, vão continuar a ser as principais vítimas da crise. Viver com menos é sempre mais fácil do que viver sem nada, incluindo perspectivas de futuro. Com um Estado falido, um governo prisioneiro do programa de ajustamento e uma economia cercada pela austeridade, as perspectivas para os desempregados são negras. Só a capacidade de resistir e o apelo à solidariedade podem fazer alguma diferença.
editorial JP 18.02.13

Medicamento, ano 2012


Em 2012, o mercado total de medicamentos,  registou um volume de vendas de 2 599,8 milhões de euros uma redução de 11,7% relativamente ao ano de 2011 (2 942,6 milhões de euros), e um aumento em volume de 2,5% (traduzindo um acréscimo de aproximadamente 5,8 milhões de embalagens). link
O mercado do SNS registou um volume de vendas  de  1 174,4 milhões de euros uma redução de 11,4% face ao ano anterior (1 326,2 milhões de euros).
O  mercado de  medicamentos genéricos registou no mercado total uma redução de 19,4% em valor e um crescimento de 18,4% em volume face ao ano de 2011. 

Medicamentos e racionalização

Um rudimentar exercício sobre um caso exemplar
Um recente artigo da revista ‘Prescrire’ linklevanta um problema crucial acerca do posicionamento das agências nacionais de medicamentos e dos prescritores face ao arsenal medicamentoso disponível. Este artigo para além de ser uma oportuna chamada de atenção para efeitos indesejáveis de alguns medicamentos sobre os seus consumidores abre nos tempos em que se questiona enviesadamente a sustentabilidade do SNS, novas janelas sobre cuidados e poupança medicamentosas.
O texto em referência revela, sobre os medicamentos com autorização de introdução no mercado (AIM), alguns entorses na relação benefícios/riscos e os ‘mecanismos’ de controlo a que deverão ser permanentemente sujeitos.
E, para além disso, ‘desmascara’ como uma certa inércia ou habituação promove a prescrição e níveis de utilização sem que existam dados concretos sobre pertinência das respostas terapêuticas e evidência científica (clínica), para além do ‘efeito placebo’.
A dinâmica da indústria farmacêutica (financeira, de liderança na investigação e inovação) leva a que sejam anualmente introduzidos no mercado medicamentoso inúmeros ‘novos’ fármacos, muitas vezes sem qualquer acréscimo em relação à ‘mais valia’ farmacológica, ou de eficácia terapêutica, quando confrontados com medicamentos do mesmo grupo terapêutico já disponíveis.
Mas exibe a questão suscitada pelo artigo da ‘Prescrire’ torna premente necessidade de cíclicas revisões de terapêuticas, mesmo as que são consideradas ‘clássicas’ ou rotineiras.
O artigo em referência discrimina vários vectores da prática médica quotidiana:
- medicamentos que expõem a riscos desproporcionados em relação aos riscos inerentes;
- medicamentos antigos que a utilização foi ultrapassado por outros que têm um balanço benefício/risco mais favorável;
- medicamentos recentes onde o balanço benefício/risco é menos favorável( em relação aos mais antigos);
- medicamentos cuja eficácia não se encontra provada para além do ‘efeito placebo’ e que expõem a danos desproporcionados;
- associações em doses fixas que acarretam feitos indesejáveis cumulativos e interacções medicamentosas dos seus princípios activos sem ganhos de eficácia.
Uma brochura anexa a este artigo particulariza algumas situações ["Pour mieux soigner : des médicaments à écarter" Rev Prescrire 2013 ; 33 (352) : 138-142. (pdf, accès libre)]
Tomemos como exemplo o fármaco trimetazidina 35 mg dos quais que existiam (Fev. 2013) 2 medicamentos de marca e 8 genéricos, mas cuja marca comercial mais conhecida é o Vastarel®, que – como é verificável por quem exerce prática clínica de rotina – faz, quase invariavelmente, parte do (extenso) ‘bornal’ medicamentoso dos utentes do grupo etário superior aos 60 anos.
Com a indicação de ser um medicamento para o “tratamento da angina de peito (dor no peito causada por doença coronária), em doentes adultos” link, é acessoriamente [off label] utilizado (em larga medida) na profilaxia das vertigens, acufenos e distúrbios dos campos visuais – dada uma empírica convicção de facilitaria o ‘alívio’ sintomático da degenerescência vascular, frequente (natural) na idade madura da vida.
Todavia, o fármaco em questão tem efeitos colaterais como os sindromas extra-piramidais ( alterações do equilíbrio, síndromas parkinsónicos, perturbações da locomoção, etc.) que são frequentemente desvalorizados ou ignorados, embora constem da do folheto informativo do INFARMED aprovado em 28.09.2012 link,como de ‘frequência desconhecida’…
Na verdade a indicação terapêutica aceite pelo Infarmed é, no mínimo, muito generosa e imprecisa. Na realidade, tratar-se-á de um fármaco adjuvante (com actuação sobre sintomas) na terapêutica de referência para o ‘angor pectoris’ e não ‘um medicamento para tratamento’, sobre o qual existem alguns alertas referenciados quer a nível europeu linkou nacional linkrelativos à sua eficácia terapêutica e a eventuais efeitos adversos, bem como recomendações particulares, entre elas, a reavaliação da necessidade de continuidade da sua utilização face aos benefícios esperados, a efectuar em todas as consultas subsequentes. Não é essa a prática e no dia-a-dia verificamos que muitos doentes ainda se encontram medicados com este fármaco, em regime de ‘ad vitam’…
Resultado: Embora seja um medicamento em evidente decréscimo de utilização em 2012 (variação homóloga em relação a 2011 de -18.3%), ainda se apresenta na 17ª. posição relativa aos 50 medicamentos com maior representatividade no consumo nos 3 primeiros trimestres de 2012 link(pág. 16) com um PVP de 8.662.413.
A trimetazidina é um medicamento comparticipado pelo SNS a 69% link e, portanto, existe aqui alguma evidência de desperdício no que diz respeito ao custo/efectividade (fármaco-terapêutica e económica) e que em relação a uma das marcas se aproxima dos 6.000.000.
O conjunto destes factos – que aqui são mencionados a título exemplificativo - deveria determinar o fim (ou a mudança de escalão) da sua comparticipação pelo SNS e proceder ao ‘re-encaminhamento’ do superavit orçamental daí resultante para outros fármacos (com evidência comprovada) cujas condições de acessibilidade tem mostrado, nos tempos recentes, cíclicas e ainda não esclarecidas dificuldades de acesso como tem sido amplamente denunciado na comunicação social. link;link.
Enfim, tomamos um dos fármacos mencionados no citado artigo do ‘Prescrire’ (acima referenciado) como um exemplo (existem outros basta olhar a brochura), reprodutível em Portugal, sem qualquer intuito de analisar ou avaliar o mercado farmacêutico, muito menos de o denegrir, mas para proceder a um sumário exercício de verificação e chamada de atenção para a necessidade do INFARMED tomar em consideração, de acordo com o revelado (situação que com certeza conhece), de que é possível e aconselhável – para os prescritores, utentes e equilíbrio orçamental do SNS - racionalizar em vez de racionar (como sugeriu o parecer do CNECV link) a despesa pública com medicamentos...
E-Pá!

IPST, níveis preocupantes

Audição, com carácter de urgência, do presidente do Conselho Directivo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, Instituto Público, Hélder Fernando Branco Trindadelink 
Ao longo dos últimos meses, por diversas vezes, os stocks de sangue do IPST não se têm encontrado no nível necessário. Actualmente os stocks desceram para níveis muito abaixo dos valores mínimos. O Bloco de Esquerda tem a indicação de que os valores nacionais no dia 1 de fevereiro são os seguintes:
São muito preocupantes estes números, sobretudo para os grupos negativos.
O Bloco de Esquerda sabe também que o IPST está a contactar telefonicamente dadores benévolos de sangue solicitando-lhes que vão doar sangue; o motivo invocado para este contacto é precisamente o de que os stocks então em níveis muito reduzidos.
Até há alguns meses, o IPST divulgava na sua página na internet os stocks existentes no país. No entanto, na mesma altura em que se começaram a registar quebras nos stocks, o IPST retirou esta informação da sua página, alegando que iria proceder a uma reorganização na disponibilização da mesma. Até hoje, esta informação nunca mais foi divulgada publicamente na página do IPST. Como tal, a informação dos stocks de sangue é mais difícil de ser conhecida.
Perante o exposto o Bloco de Esquerda considera fundamental esclarecer esta grave situação bem como conhecer as medidas que estão a ser implementadas pelo IPST para fazer face a estes níveis mínimos de stocks de sangue, garantindo a efectivação de medidas que permitam garantir que este cenário não se repete.
Em 2012, houve uma forte queda nas unidades de sangue recolhidas. Só numa região, registou-se uma perda de 22000 colheitas.
Assim, ao abrigo das disposições regimentais e constitucionais, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda requer, com caráter de urgência, a audição do presidente do Conselho Diretivo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, Instituto Público, Hélder Fernando Branco Trindade.
O Deputado do Bloco de Esquerda, João Semedo

O portageiro do SNS.

O Prof. Manuel Antunes foi um dos convidados para a Conferência “O Estado pode continuar a tomar conta de nós?” link
Bem. Sucedeu o inacreditável. Ninguém tomou conta dele. E entregue à sua douta ‘criatividade’, dado encontrar-se no Conservatório de Música de Coimbra, i. e., longe dos rituais do bloco operatório, resolveu ‘dar música’ à plateia e arrancou numa desenfreada sinfonia arrostando impiedosamente e ruidosamente contra todos os obstáculos que o incomodam quanto à sustentabilidade do SNS.
Nesse ‘concerto’ de ideias melódicas e anedóticas tocou notas verdadeiramente dissonantes, para não lhe chamar fífias.
Embalado num tempo ‘allegro agitato’ desviou-se da partitura prevista (‘tomar conta de nós’ dentro do quadro constitucional vigente) e lançou-se em ‘heróicas’ (‘patrióticas’) deambulações (variações) sobre o mote dos co-pagamentos.
Disse: “As taxas moderadoras deviam desaparecer. Defendo os co-pagamentos, excluindo para as pessoas que não podem realmente pagar”, e rematou esta sequência como que agitando a uma imaginária batuta sobre os atónitos ouvintes com a previsão de que se assim não for, os impostos terão de “continuar a subir”. link
Não sabemos se esta tirada teve direito a ‘encore’. Mas conhecemos o roteiro: A ‘insustentabilidade’ financeira do SNS - um jargão frequentemente esgrimido nos ‘think tanks’ ultraliberais - insere-se em ‘modernas’ concepções ideológicas sobre a ‘sustentabilidade’ das prestações sociais que só excepcionalmente conseguem ultrapassar a mesquinhez do ‘contable’, triturando na polé da eficiência qualquer contexto de solidariedade, equidade e universalidade.
Nestas ‘liberais’ concepções o Estado deve ser ‘libertado’ destas ‘peias’ sociais para – não o confessam, mas suspiram - mais expeditamente ser colonizado (capturado) por interesses económicos e financeiros, carentes de uma fiscalidade ‘aliviada’ pelo alijamento daquilo que consideram minudências sociais. O resultado prometido é a agilização e rentabilização da Economia e dos negócios (aquilo a que eufemísticamente se convencionou chamar de ‘competitividade’), independente de qualquer equilíbrio ou compromisso redistributivo.
A discricionária e cega opção monetarista [os cortes balizados em 4.000 milhões de euros] com todos os condicionalismos e perversões entranhou de tal maneira a denominada ‘Reforma do Estado’, que tornou inviável qualquer tentativa de debate sério sobre ‘sustentabilidade’ do SNS.
Não é verdade que - como tentou demonstrar Manuel Antunes - os impostos tenham sofrido um ‘enorme’ agravamento devido às transferências do OE para o SNS. Na realidade, as transferências do OE para o SNS entre 2010 e 2012 decresceram mais de 19% (passaram dos 8.848 para os 7.107 milhões de euros) e os reais custos desta operação no que diz respeita à qualidade das prestações estão ainda por apurar. A ‘justificação’ apoiar o ‘dogma da insustentabilidade’ terá, portanto, de ser encontrada noutras paragens. Por outro lado, não tomar em consideração que existem co-pagamentos ocultos, ‘encapotados’ e ‘não contabilizados’ sob a forma de ‘out of pocket’, seguros de saúde, outros sistemas assistenciais e comparticipações medicamentosas, atingem o ‘volume’ de cerca de 35% das despesas globais com a saúde, portanto uma importante fatia, estranha às dotações orçamentais e que constituem uma pesada e dolorosa sobrecarga para os rendimentos das famílias e empresas portuguesas, quando confrontado com a média nos países da UE (27%). Trata-se de um elevado ‘cost-sharing’ que - numa discussão deste tipo – não poderá ser considerado despiciendo.
Parte II
Mas o espantoso surgiu quando Manuel Antunes sugeriu a aplicação do princípio utilizador/pagador ao SNS. Sem qualquer pudor ou rebuço pôs – de uma assentada - em causa para a generalidade dos utentes a universalidade do direito de acesso ao Serviço Nacional de Saúde, constitucionalmente consagrado. Dispôs-se a perorar sobre um imaginário Estado sem leis fundamentais, sem regras, sem resquícios de solidariedade, sem compromissos sociais quando seria suposto o citado conferencista ter botado faladura sobre o SNS em Portugal.
O modelo institucional vigente no nosso País garante o acesso a bens e serviços essenciais e assenta num circuito ‘extra-mercado’. Baseia-se no reconhecimento de direitos de cidadania e sociais a todos os portugueses, competindo ao Estado assegurar a todos os cidadãos sendo o seu financiamento obtido através de dotações orçamentais. O que estaria em causa neste debate – a enviesada discussão promovida versa o corte de 4.000 milhões de euros na área social - é o modo como cumprir (com um orçamento mais estreito) esse contrato social. Não insidiosamente questioná-lo ou tentar subverter o modelo actual por sistemas assistencialistas. O equilíbrio fiscal e orçamental não pode ser equacionado – não é essa a discussão actual - à volta da de restrições dos direitos sociais, nem pervertido pela solução dos ‘co-pagamentos’. Isto significa alterar completamente o actual paradigma e colocar o SNS na total dependência dos apetites dos mercados em que a quantidade e qualidade dos serviços médicos recebidos pelo cidadão passe a depender directamente do seu poder aquisitivo.
O Prof. Manuel Antunes tentou iludir as questões recorrendo ao exemplo dos 10 € que alguns dos seus conterrâneos se disponibilizariam para ‘co-pagar’ uma consulta de Medicina Geral e Familiar. Não soube quantificar o impacto desses co-pagamentos, para grande número de portugueses (os desempregados, os titulares de pensões sociais, os doente crónicos, os idosos, etc.) numa situação em que para muitos não existem, efectivamente, outras vias de acesso alternativas às disponibilizadas pelo actual SNS. Propôs, no entanto, que Estado deixe de assumir cabalmente os seus compromissos e as suas responsabilidades em troca de um modelo de mercado (embora mitigado e partilhado sob a forma de co-pagamentos).
Não foi mais além e, por exemplo, não ousou quantificar o previsível co-pagamento para uma intervenção cirúrgica cardio-torácica. Segundo o seu raciocínio, será de prever que deixaria muitos utentes de fora. A aquilatar pelo valor de cada intervenção cirúrgica, deduzido a partir do montante dos ‘incentivos’, (10.000 euros conforme foi anteriormente revelado nos Prós e Contras de 20.01.2013) e mantendo a mesmo esquema de construção de preços, os valores dos co-pagamentos para esse tipo de cirurgia ultrapassariam os 1000 euros ou seja seriam só para ‘ricos’, dentro da lógica fiscal do actual Governo. Ninguém percebeu qual seria o rebate financeiro e assistencial no seu CRI. Mas esse aspecto – o conferencista é useiro e vezeiro no reduzir do SNS ao seu serviço – fica para outros carnavais…
Não sei porquê esta espúria sugestão do utilizador/pagador ‘construída’ pelo desabrido orador à volta do ‘exemplo das auto-estradas’ teve a mercê de esbater a imagem de um esclarecido mensageiro, um eventual um pregador de soluções acerca da sustentabilidade do SNS, para aparecer em público como um bizarro indígena com espírito de ‘portageiro’.
E-Pá!

À liberal pacotilha


«Saúde e Segurança Social: O Estado pode continuar a tratar de nós?»
«Fim das taxas moderadoras»
«Neste momento, vemos uma degradação muito rápida do Serviço Nacional de Saúde (SNS)», frisou Manuel Antunes, justificando a sua resposta pessimista com o custo per capita de 2150 euros, a nível da Saúde, dos quais o Estado paga 1500 euros.
Na óptica do director do Centro de Cirurgia Cardiotorácica do CHUC, a alternativa passará pelo «fim das taxas moderadoras», substituindo-as por co-pagamentos dos utentes do SNS, em que uma percentagem do custo do acto médico venha a ser paga pelas pessoas, «excluindo as que não podem realmente pagar». Assim, para Manuel Antunes, a solução não estará no corte de «mais desperdício», mas em recusar a ideia do «celeiro comum para todos».
«Se olharmos para a curva dos custos de saúde, vemos que são muito caros e que, nos últimos 25 anos», na generalidade dos países do Mundo, esse aumento tem correspondido, em média, ao «dobro da inflação», argumentava o conferencista, sustentando que, no sector da Saúde, deve ser adoptada «a mesma filosofia das auto-estradas», cujos utentes pagam as respectivas portagens sem ser «em função daquilo que ganham».
Ao ter em conta «esse mesmo princípio», o médico sublinhava que «as taxas moderadoras já deram o que tinham a dar. Deviam desaparecer. Cada um devia pagar uma proporção», observou, adiantando que, na sua aldeia, no distrito de Leiria, «qualquer pessoa pode pagar 10 euros por consulta no Centro de Saúde».
«O Estado pode continuar a tratar de nós…»
Por sua vez, a resposta do actual deputado socialista ao Parlamento Europeu, António Correia de Campos, é positiva. Ou seja, na sua opinião, «o Estado pode continuar a tratar de nós, se nós tratarmos dele».
Para o professor da Escola Nacional de Saúde Pública, é preciso desenvolver o Estado «com aperfeiçoamentos, sem o tornar mais pesado, ineficiente e inequitativo».
«Tratar do Estado será muito diferente de desistir dele, entregando as suas funções ao mercado», notava Correia de Campos, na conferência «Saúde e Segurança Social: O Estado pode continuar a tratar de nós?», moderada por Pinto Balsemão (fundador e primeiro director do Expresso) .
«O mercado é um método excelente para gerir os recursos da sociedade nas áreas sociais, mas muito pouco preocupado com a equidade na distribuição e com tendência a invadir, a restringir ou a deformar as funções sociais, se não for convenientemente regulado», reparava o eurodeputado Correia de Campos, alegando que «o mercado deve ser prevenido nas suas falhas e regulado de forma independente».
Um Estado «complacente»
Na sua alocução, o antigo ministro da Saúde afirmou que o Estado tem sido «complacente» e que deve ser «mais rigoroso na função distributiva, evitando a sua captura pelos interesses instalados».
Por conseguinte, António Correia de Campos apelou para a existência de critérios que visem mais eficácia, mais eficiência, «melhor e menor custo» e, também, uma forma distributiva justa e equitativa, «alcançando o maior número de beneficiários, através da igualdade de oportunidades».
Nessa perspectiva, o conferencista apresentou quatro sugestões, a seu ver «muito práticas para o aperfeiçoamento do Estado Social».
A primeira prende-se com uma clara «separação das águas» entre o exercício da Medicina nos sectores público e privado, procurando evitar «ineficiências, conflitos de interesse e desigualdades». A esse respeito, o orador denunciava: «Os doentes que são subtilmente encaminhados para o sector privado, por terem meios de fortuna, acentuam o carácter classista negativo que os hospitais e outros serviços públicos hoje têm.»
A segunda proposta visa a reorganização dos sistemas de gestão intermédia, permitindo um «esforço de produtividade proporcional ao desempenho» e acabando com os ditos «incentivos negativos».
A terceira sugestão tem a ver com o «aumento da responsabilidade cívica dos cidadãos no SNS, com a entrega a cada utente de uma factura virtual dos serviços que recebeu, contendo o respectivo custo real». Com essa factura virtual, embora a pessoa não a pague, «fica a saber quanto é que a comunidade, o Estado, gastou». Isso irá, segundo o ex-ministro da Saúde, «reduzir o risco moral do uso excessivo» dos que frequentam o Serviço Nacional de Saúde.
Por fim, além da vontade de «mudar comportamentos», Correia de Campos propõe o aumento da participação local na gestão dos serviços ou unidades de saúde. A este nível, o antigo governante pensa que «os municípios não têm praticamente nenhuma intervenção na racionalização dos serviços» e que é necessário «maior controlo do sistema por parte dos cidadãos».
Vitalino José Santos , Tempo Medicina, 1º Caderno de 08 de Fevereiro de 2013

«As taxas moderadoras já deram o que tinham a dar. Deviam desaparecer. Cada um devia pagar uma proporção», considera o cirurgião cardiotorácico Manuel Antunes
Correia de Campos afirmou que o Estado tem sido «complacente» e que deve ser «mais rigoroso na função distributiva, evitando a sua captura pelos interesses instalados»
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O tempo do professor Manuel Antunes passou. O SNS e as taxas moderadoras serviram enquanto o financiamento lauto ao Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) não faltou.  Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Chegou o tempo de colagem ao que está a dar. Defender co-pagamentos da saúde. À liberal pacotilha. Mesmo que isso signifique o fim do SNS. Sr. professor arranje coragem e reforme-se.


Tudo numa boa ...

«Os hospitais públicos deviam 667 milhões de euros às empresas de dispositivos médicos, no final de 2012, com um prazo de médio de pagamento de 361 dias, segundo a Associação Portuguesa das Empresas de Dispositivos Médicos (APORMED)».link 
Isto quanto o Estado injecta 1,1 mil milhões no Banif  link e o ministro da saúde  apregoa a proximidade da sustentabilidade económico financeira do SNS  link

Sustentabilidade do SNS – Não há dinheiro?


Os custos e a alegada insustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde (SNS) têm constituído a espinha dorsal d a argumentação usada por governos e partidos da área do poder para justificarem os cortes orçamentais que hipotecam o desenvolvimento do SNS, servindo de explicação para a contínua retirada de direitos aos cidadãos.
Na realidade, as transferências do Orçamento de Estado para o SNS têm vindo a diminuir drasticamente, sendo os governos muito criativos na invenção de múltiplas e enviesadas formas de o sub-financiar.
Se em 2010 foram transferidos do Orçamento de Estado para o SNS 8.848 milhões de euros, em 2012 essa verba diminuiu para 7.107 milhões, um corte de cerca de 20% (19,7%) -  fonte: SNS – Orçamento de Estado 2012, Ministério da Saúde.
Contudo, o facto de sucessivos governos terem desenvolvido políticas fiscais laxistas ou favorecedoras das grandes empresas cotadas em Bolsa e desviado enormes somas para apoio a investimentos de prioridade mais que discutível - BPN e BPP, BCP, SIRESP, submarinos, “perdão fiscal” às mais valias da PT, do BES, da Jerónimo Martins, “off-shore” da Madeira, auto-estradas em excesso, contratos ruinosos nas PPP, “rendas” abusivas na energia, etc., - mostra que a apregoada insustentabilidade financeira do SNS, não pode ser, dessa forma, justificada, existindo muito dinheiro malparado que daria, caso as escolhas políticas fossem outras, para assegurar, sem dificuldade, o presente e o futuro do SNS.
De resto, quer no plano nacional, quer no internacional, não foi a bancarrota do “Estado Social” ou o custo dos serviços por ele prestados, a causa da crise em que o mundo e o país mergulharam. Na realidade, foi a falência do sistema financeiro, originada por uma política de desregulação que estimulou investimentos não produtivos de elevado risco e crédito armadilhado para estimular o consumo, a causa do previsível e inevitável “crash” que, depois, os mesmos interesses egoistas fizeram repercutir sobre toda a economia. A grave situação actual foi desencadeada por esse desastre financeiro que governos cúmplices procuraram e procuram encobrir, tapando buracos e “imparidades” com dinheiros públicos, que depois dizem faltar à sustentabilidade dos direitos sociais.
Em Fevereiro de 2008, depois de anos de apregoada insustentabilidade financeira do National Health Service inglês, o governo britânico injectou, sem hesitação e num piscar de olhos, 73 mil milhões de euros (aproximadamente o valor total da “ajuda” do BCE-FMI a Portugal) para “salvar” o Northern Bank que a especulação bolsista da administração levara à falência.
Em Portugal, enquanto se corta no Ensino e na Saúde, perdoa-se aos acionistas da PT 270 milhões de euros que deviam pagar ao fisco, gastam-se 5 a 7 mil milhões de euros só para safar um banco (BPN), que depois se vende por 40 milhões, gastam-se mais 450 milhões para “salvar” o BPP (ou alguns dos seus accionistas) que acabou por fechar deixando os depositantes mais crédulos de bolsos vazios. Retiram-se mil milhões de euros ao SNS, mas pretendeu-se dar 800 milhões de euros às grandes empresas, cortando a taxa social única (TSU) que os trabalhadores teriam de compensar,. A Caixa Geral de Depósitos, que gastou dinheiro no socorro ao BPP e ao BPN (que o estado tem de repor), há pouco recapitalizada com fundos da “ajuda” da troika, corta os empréstimos aos cidadãos e às pequenas e médias empresas mas financia os Mellos em centenas de milhões de euros para completarem a aquisição da Brisa (os mesmos Mellos que continuam a investir nas Parcerias Público-Privadas da Saúde ocupando o vazio criado com o sub-financiamento do SNS).
Confirmando que o problema não se centra na (in)capacidade financeira ou na insuficiente produção de riqueza mas sim numa opção ideológica facciosamente monetarista ao serviço de interesses dos donos da banca e das grandes empresas, as mesmos instituições (Comissão Europeia, BCE, FMI) que afirmam, nos media, a dificuldade ou impossibilidade de resolver os problemas da dívida soberana dos preguiçosos países do Sul, dolosamente apelidados de PIGS, retirando direitos (nomeadamente na Saúde) aos seu povos, encontraram a forma rápida de “dar”, discretamente, só em Dezembro de 2011 e Fevereiro de 2012, um milhar de mil milhões de euros (1000 de mil milhões) à banca.
Sublinhe-se, a propósito da grandeza dos números, que o total de apoios à banca europeia, era, segundo afirmou Durão Barroso ao Parlamento Europeu em Setembro de 2011, de 4.600 mil milhões de euros, o que, somado aos recentes acrescentos, eleva essa ajuda a um total fabuloso de 5.600 mil milhões de euros, (7 a 10 vezes o fundo de estabilidade europeia - ESM, a “grande bazuca” contra a especulação recentemente aprovada, cerca de 15 vezes o valor total da dívida grega e 71 vezes a “ajuda” concedida a Portugal, uns “míseros” 78 mil milhões, metade dos quais irão ser devolvidos em juros e comissões). 
Então não há dinheiro?...
“Há e não há! É uma questão de prioridades. Há para umas coisas e não há para outras...” - como disse o (tão ignorado pela TV) Prof. Bruto da Costa, prestigiado economista, presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, organismo oficial da Igreja Católica:
De facto, a pergunta correcta não é se há dinheiro. A questão que deve ser posta aos portugueses é se querem continuar a gastar o dinheiro que têm a “salvar” os accionistas do BPN e do BPP, a pagar mais uma auto-estrada aos Mellos, a comprar submarinos que nem os compromissos da NATO obrigam, a dar muitos milhões em “rendas” às PPP e às empresas de energia, a perdoar impostos à banca e às famigeradas Sociedades Gestoras de Participações Sociais (SGPS), ou se, pelo contrário, acham melhor gastá-lo em investimentos produtivos e no financiamento do SNS e de outros serviços sociais do estado.
Dez caças F-16 comprados em 1994 e que nunca chegaram a sair dos caixotes onde ainda hoje permanecem, representam “só” 600 milhões de euros abandonados a um canto, constituindo um paradigmático monumento ao despesismo delirante e terceiro mundista dos nossos rigorosos governantes que tão facilmente acusam os portugueses de viver acima das suas possibilidades e o SNS de ter um custo insuportável.
Apesar dos alegados desperdícios dolosamente empolados pelos governos das últimas décadas que sobre eles montaram outra das vertentes da argumentação justificativa do apoio prestado aos grandes interesses privados, o Serviço Nacional de Saúde continua a constituir um dos maiores avanços alcançados pela democracia em Portugal, tendo colocado o país no pelotão da frente dos melhores cuidados de Saúde (12º do mundo em 2001, segundo a OMS) permanecendo ainda, e apesar de todos os ataques desferidos, como um serviço público eficaz e com boa rentabilidade (cada vez menor, é certo).
A celebrada “empresarialização” dos Hospitais, que inoculou o pior da lógica da organização privada no seio do serviço público, trouxe consigo uma “criativa” concorrencia de números e práticas de obscuro rigor, perseguindo lucros virtuais construídos na falsidade das estatísticas, a que acrescentou, simultaneamente, uma cascata de medidas regulamentadoras que insuflaram o desvio administrativista e burocrático da gestão hospitalar.
Esse caminho perverso, quase sempre redundante e supérfluo, sobrepôs-se à prioridade natural dos objectivos clínicos, multiplicando administradores, assessores e outsourcings, fazendo disparar os custos sem melhorar  a qualidade dos serviços.
O ataque às Carreiras Médicas, que asseguravam e validavam a progressão técnico-científica dos médicos e a estruturação hierárquica dos Serviços, desvalorizou a avaliação inter-pares substituindo-a por nomeações e contratos isolados, tornando o exercício da prática médica mais precário e fragmentado, mais dependente de regras irracionais e de números ilusórios. Assim se foi também menorizando a formação e a investigação clínica, tornando mais difícil a criação do espírito de equipa facilitador do trabalho multidisciplinar. Com a necessidade de contratação de empresas externas, muitas vezes para assegurar unicamente as urgências, fez-se aumentar, sem proveito, os gastos do Estado no SNS, pondo em risco a sua qualidade e o seu futuro.
Apesar disso, os custos do SNS português permanecem (ao contrário do que é apregoado), em valores significativamente baixos, quando comparados com outros países europeus. Embora o cidadão português seja dos que mais gasta do seu bolso - 24% dos gastos em Saúde são custos directos com medicamentos, saúde oral e outros (fora do SNS) -, o gasto médio em Saúde por habitante é, em Portugal (1.627 euros), muito inferior ao da Espanha (2.139), metade da Alemanha (3.221), Suécia (3.335) e França (3.370) e três vezes menos que nos USA (5.227) e Luxemburgo (5.438) – dados recentes fornecidos pelo Eurostat e referentes a 2008.
Só no contexto virtual criado pela Tutela e pelos media, é que o SNS - apresentado como estando sempre em crise - vive acima das suas (nossas) possibilidades, num país preguiçoso e sem dinheiro. Por isso, segundo a Tutela, há que fazer pagar o cidadão que procura o sistema público, e que o usa por vezes mal (devido à desorganização da ligação dos cuidados primários com os diferenciados), encaminhando-o para as Urgências, engarrafando os seus acessos, o que estimula a conflitualidade e o descontentamento.
O “cliente” menos informado é, assim, através dos media que constantemente atacam o serviço público de Saúde, instrumentalizado e atirado às bichas das Urgências e dos SAP, ou desviado para a privada a pretexto dos tempos de espera de consultas e intervenções cirúrgicas que a Tutela faz gala em lamentar nos telejonais, nunca ter dado mostras de querer, verdadeiramente, resolver esses problemas dentro do SNS. Aliás, diga-se em abono da verdade, que se a Tutela os já tivesse resolvido, teria solucionado o essencial, e não haveria nenhuma oportunidade de negócio para a grande privada que, provavelmente, nem sequer existiria.
Como o SNS conquistou um lugar incontornável no núcleo de direitos alcançado pela democracia portuguesa, não há ainda, no amplo espectro partidário português (mesmo entre os mais ortodoxos apoiantes do neoliberalismo monetarista de Milton Friedman do nosso governo), quem assuma publicamente ser contra ele. Todos afirmam defender o SNS e tudo o que fazem, quando no poder, é justificado pela busca da sua sustentabilidade ou do seu aperfeiçoamento. Seguindo essa tática, a resposta da Tutela tem sido sempre a de mostrar preocupação com o “caos” e o “problema” da Saúde, dedicando-se a “aperfeiçoar” medidas “salvadoras” do SNS, que, na realidade, mais o foram afundando, agravando os seus problemas, aproveitando a deixa para fazer o cidadão pagar, de forma pedagógica, “aprendendo” assim que a Saúde custa dinheiro.
Tornou-se pois, necessário que o cidadão se habitue a pagar. Pagar a alguém, pagar por cada acto, por cada episódio, por cada consulta. Como na privada. Ou melhor, como na grande privada, porque a pequena é já hoje uma realidade quase inexistente não passando, na maioria dos casos, de consultórios-franchizing das companhias de seguros que pagam cada vez pior o trabalho médico (30 euros brutos ou menos por cada consulta de especialidade). De fora, restam apenas franjas sobrantes que ainda alimentam, em alguns profissionais, o sonho de uma medicina liberal, numa profissão que cada vez mais se proletariza (no mau sentido do termo, infelizmente).
É a grande privada que se tem expandido exponencialmente, ocupando espaço criado pelo progressivo desabamento do SNS causado pelas medidas tomadas pela Tutela “para o consolidar”. É ela a grande vencedora deste jogo de sombras. É ela também que se apropria dos maiores lucros (é o negócio mais lucrativo, a seguir ao das armas – Isabel Vaz /BES Saúde, dixit).  A grande privada que, paradoxalmente, só sobrevive e acumula lucros com a baixa remuneração da maioria dos profissionais e a contribuição decisiva de subvenções e apoios estatais, conhecidos e desconhecidos, directos e indirectos, através das PPP, dos sub-sistemas, das transferências de doentes como a ADSE, Min.Justiça, SIGIC, dos cheque–cirurgia, das convenções, das assessorias, tirando mais dinheiro dos bolsos dos contribuintes que voltam a pagar o que já descontaram para o SNS.
A Constituição assegura um SNS tendencialmente gratuito e proíbe o co-pagamento? Pois há que fazê-lo tendencialmente pago! Como? Nada melhor do que criar taxas ditas “moderadoras”, porque moderar não é constitucionalmente proibido. O estranho, nessas taxas “moderadoras”, é que também são cobradas análises, colonscopias, gastroscopias, broncoscopias, como se isso fosse escolha (ou abuso) do doente, viciado em picadelas, exames invasivos e operações, e não actos só possíveis de executar por prescrição médica.
Na realidade, as taxas “moderadoras” têm outro papel: o de indiciar um co-pagamento progressivo que atenue a diferença com o preço da privada e crie a habituação de que os cuidados de Saúde não são um direito inerente a qualquer cidadão e um serviço pré-pago. As taxas são, de facto, um duplo pagamento contrário ao espírito e à letra da Constituição (como toda a gente sabe), e só o contorcionismo jurídico de um Tribunal Constitucional partidarizado as conseguiu encaixar no seu espírito solidário e “tendencialmente gratuíto”.
O actual governo assume despudoradamente querer reformar o “Estado Social”, abandonando o dever de garantir, por igual, o direito de todos os cidadãos à Saúde, substituindo-o por uma política caritativa e assistencialista ( a devolução, pelo SNS, de duas dezenas de hospitais às Misericórdias e a campanha de um “cortejo de oferendas” para construir uma ala pediátrica de um grande hospital público, são apenas dois símbolos desse retrocesso). Assim se procura dar aos “pobres”, o pouco que resta de um Orçamento de Estado virado para os negócios e para as negociatas, a que se juntam as sobras de um “mecenato” que as grandes empresas quiserem dispensar com o dinheiro que lhes é poupado nos impostos, e a quem, todos nós, depois, devemos ficar servilmente agradecidos.
Sublinhe-se que nada há de mal ou criticável na prática médica individual e privada da Medicina. Um médico pode e deve, em qualquer sistema (público ou privado), exercer com honestidade e eficiência a sua profissão. Mas a privatização dos cuidados de Saúde, como forma organizativa que tem em vista o lucro, não é barata nem eficaz e contém em si mecanismos perversos que facilitam e estimulam a distorção, a falta de rigor e a má prática.
A evolução técnica e a multidisciplinaridade da medicina moderna, obrigam a um aumento de escala dos investimentos, que não pode (nem deve) ser combatido, já que tal implicaria um recuo na capacidade e/ou no nível assistencial. Contudo, esse contínuo desenvolvimento pode e deve ser efectuado, com vantagem, no seio de um sector público não lucrativo, centrado no benefício da população e não no interesse dos accionistas, de forma a não deixar largos sectores populacionais sem cobertura, entregando-os a sistemas assistencialistas sub-financiados e de má qualidade. A experiência negativa dos USA é uma boa prova das inúmeras desvantagens da liberalização e privatização da Saúde (cara e com enormes desperdícios), em que os inúmeros centros de excelência convivem com milhões de cidadãos sem assistência, ou com direitos à Saúde limitados e degradados.
Poder-se-á concluir, pois, que o estrangulamento do SNS que as medidas governamentais e da troika implicam, são o acentuar de uma política que, de há muito, procura limitar o seu papel de grande e dominante serviço público prestador de cuidados de Saúde. Essas medidas não são justificadas por qualquer défice na sua sustentabilidade económica presente ou futura. Na realidade, elas representam apenas uma opção ideológica concreta, que defende interesses estranhos ao bem-estar da população, contrariando o desígnio constitucionalmente consagrado de um SNS universal, solidário e tendencialmente gratuito.
Há contudo, um largo consenso que se pode e deve construir na defesa cidadã do SNS, contra a política da troika e dos grandes interesses que sequestram o governo e o país, construindo um futuro que derrote o falso fatalismo do “não há alternativa”, posto em voga por Margaret Tatcher, primeira responsável da brutal fragilização do prestigiado National Health Service inglês.
A intransigente oposição à desestruturação do SNS português, como serviço público cumpridor dos preceitos constitucionalmente instituídos, deve assumir-se como o campo transversal, abrangente e pluripartidário onde os médicos portugueses e a sua Ordem se devem posicionar, na defesa dos seus direitos, dos direitos dos doentes e de todos os cidadãos do país.

Jorge F. Seabra, Membro da Comissão Nacional da OM para o SNS 
 
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