Um trabalho razoável ?
A falta de confiança na liderança do SNS é incontestável, apesar das acções de propaganda
Nos momentos em que surge na opinião pública um conjunto de dúvidas em relação à qualidade da actuação do actual ministro da Saúde, a nação é intoxicada com uma série de peças jornalísticas sobre alegadas intervenções que hão-de ter enormes efeitos positivos… daqui a uns meses. Para confundir a opinião pública em relação à denunciada incompetência na gestão do SNS, a equipa ministerial da saúde anuncia, por exemplo, que vai tomar importantes decisões para apoiar os cuidados continuados e os cuidados de saúde primários… em 2016.
Quiçá influenciado por este processo contínuo de propaganda clássica, um comentador de uma rádio afirmou, recentemente, estar indignado com o facto de, a este ministro, ter sido cantada a notável obra da nossa cultura popular Grândola, Vila Morena, uma vez que o “ministro está a fazer um trabalho razoável”. Vindo de um ignorante das questões de gestão de sistemas de saúde, o comentário não pode ser levado a sério e acreditamos que ele próprio não leve a sério o que diz sobre o SNS na rádio em que comenta.
No entanto, o conceito de trabalho razoável é profundamente manipulador e subversivo. Sobretudo quando dirigido a um sector em que ainda imperam dirigentes politicamente nomeados sem qualificações específicas para as funções exercidas. Nesta interpretação, todo o trabalho de dirigentes medíocres poderia ser classificado como razoável, sobretudo quando não se conhecem as realidades em que operam e não se identificam imobilismos táctico-partidários como factores que promovem o descalabro do SNS. Não decidir por tacticismo, quando o sistema de saúde necessita de intervenção e liderança, é imoral. Decidir mal e procurar branquear os seus efeitos negativos, deve ser entendido como uma acção fraudulenta e um desrespeito pelas expectativas dos cidadãos e dos profissionais de saúde, com a cumplicidade de “analistas” que comentam qualquer sector de forma ignorante e irresponsável.
Interessa, porém, indagar se o tal comentador terá levado em linha de conta as trapalhadas com as três cartas encomendadas para a reforma hospitalar? O mistério do encerramento compulsivo da Maternidade Alfredo da Costa? O mistério do contrato atribuído ao hospital da Cruz Vermelha, e outros que se poderão estar a preparar? A falta de sensibilidade em relação aos dadores de sangue que resultou na crise de fornecimento aos hospitais? O aumento exponencial dos tempos de espera para a realização de exames e análises de diagnóstico? A enorme transferência de despesa para o bolso dos doentes e famílias? As polémicas nomeações para a direcção dos Agrupamentos de Centros de Saúde? As trapalhadas com a lei do tabaco e a lei do álcool? A falência técnica de unidades de cuidados continuados? O descalabro do Plano Nacional de Saúde como elemento central das políticas de saúde? A incapacidade de dinamizar o crescimento das Unidades de Saúde Familiar? O desrespeito pelas necessidades do foro materno-infantil do Norte? A incapacidade de produzir uma única ideia para a reforma do sistema de saúde? A total desorientação estratégica das funções de regulação da saúde? A recente lei kafkiana exigindo justificação plausível para faltar a consultas nos hospitais? Com aparente leveza de análise, alguns comentadores arriscam imitar Beppe Grillo como uma espécie de Governo-sombra à moda italiana.
A falta de confiança na liderança do SNS é incontestável, apesar das acções de propaganda. Os agentes do sistema, incluindo sindicatos, indústria farmacêutica e investidores privados, têm noção da desorientação estratégica e dos perigos que enfrentam na medida de decisões que promovem o colapso do SNS turvado com o discurso incoerente da sua defesa. O pior é a falta de transparência nas decisões e, sobretudo, nas intenções.
O vazio de direcção estratégica e a constante propaganda encomendada contrastam com os tempos de inovação de Luís Filipe Pereira e Correia de Campos e com a realidade europeia. Triste.
Paulo Moreira, JP 09.03.13





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